Movimento #MamiloLivre peita a desigualdade de gênero

Movimento #MamiloLivre peita a desigualdade de gênero
Julia Rodrigues e Letícia Bahia, as idealizadoras do #mamilolivre (Foto: Chris von Ameln)

Julia Rodrigues e Letícia Bahia, as idealizadoras do #mamilolivre (Foto: Chris von Ameln)

Vai ter teta na rua e nas redes sociais, sim. E se reclamar vai ter clitóris também. Calma, eu explico. A fotógrafa Julia Rodrigues e a psicóloga Letícia Bahia, autora do blog feminista Reflexões de uma Lagarta, começaram a espalhar lambe-lambes nas paredes e muros de São Paulo com a hashtag #mamilolivre (a exemplo da foto que ilustra esse post). A iniciativa está nas redes sociais, onde tem sido alvo de censura. Antes que você saia dizendo por aí “que putaria é essa”, peço que leia este post até o final. A causa é muito nobre: a dupla quer questionar os tabus em relação ao corpo da mulher. Mais do que isso, elas convidam a gente a refletir sobre a bizonha desigualdade de gênero.

Voltemos algumas décadas no tempo. Vamos lembrar das ~mina porreta~ que reivindicaram coisas que hoje nos parecem básicas. “Por que eles podem dirigir e nós, não?” ou “Por que meu marido pode trabalhar fora de casa e eu preciso cuidar dos filhos?” ou “Por que ele tem direito do prazer no sexo e eu só abro as pernas com fins reprodutivos?”. A pergunta que Julia e Letícia nos trazem agora é “Por que eles podem andar por aí sem camisa sem serem assediados ou julgados, enquanto as mulheres são proibidas de fazer o mesmo?”.

Na verdade, vou além. Porque as perguntas são infinitas. “Por que uma garota que transa no primeiro encontro ‘não é pra casar’, mas ninguém fala isso de um cara?”; “Por que ganhamos salários 30% menores do que eles, ainda que tenhamos cargos iguais na empresa?“; “Por que essa história de que homem ‘sabe separar sexo de amor’ e mulher não?“; “Por que um vídeo íntimo de uma menina vaza na internet e acaba com a vida dela, mas o povo ignora quando as imagens expostas são de um menino?”; “Por que temos medo de andar sozinhas numa rua escura e os homens, não?“; “Por que amamentar num espaço público provoca constrangimento e críticas alheias?” etc etc etc.

Mamilos te constrangem? Ou só os femininos? (Foto: Mamilo Livre)

Mamilos te constrangem? Ou só os femininos? Você consegue enxergá-los além do erotismo? (Foto: Mamilo Livre)

Leia a entrevista que fiz com a Letícia e o manifesto #MAMILO LIVRE (Tumblr aqui, Facebook aqui).

1. Mulheres e homens são iguais em direitos e obrigações. As liberdades que estão disponíveis para um grupo precisam estar disponíveis para todos. 

2. Esconder ou exibir os mamilos deve ser escolha, não obrigação. Para qualquer pessoa, de qualquer sexo, raça ou religião e em qualquer idade.

3. Ninguém precisa ter vergonha de seus mamilos (nem dos mamilos dos outros). É uma parte do corpo como outra qualquer, e todo mundo nasce com mamilos. 

4. Mamilos são diversos. Cada um tem cores, tamanhos e formas únicas. Eles são tão diversos quanto as pessoas, e a diversidade é linda. 

5. Mamilos não são públicos. Se eles estão à mostra, não quer dizer que estejam à disposição. 

6. Mamilos não são inerentemente sexuais. Eles podem ser, mas não precisam ser, como qualquer outra parte da anatomia. 

7. O indivíduo é soberano em relação ao próprio corpo. A vergonha e a lascívia alheia não podem se sobrepor ao livre usufruto do próprio corpo.

 

Pimentaria > Ontem, na home da Globo.com, uma das notícias era que a atriz Bruna Marquezine havia comparecido a um evento “sem sutiã” e seu “farol aceso” teria chamado atenção. Sim, eles usaram essas expressões. Por que os mamilos de uma mulher viram piada e manchete?

Letícia Bahia > Nossa sociedade impõe às mulheres a noção de que os mamilos femininos são inerentemente sexuais. É claro que a Bruna não estava pensando em sexo, mas a mídia, como porta voz dessa cultura que não cansa de erotizar o corpo feminino, traz esse tom para a notícia. Muitas vezes queremos explorar a dimensão erótica do nosso corpo, mas essa é uma decisão que cabe a nós. Esse negócio de o olhar masculino definir as regras de comportamento e vestimento das mulheres é uma baita expressão do machismo.

Pimentaria > Homens podem andar por aí tranquilamente sem camisa. Não serão julgados ou assediados por isso. Por muito menos, mulheres vestidas com top ou decote querem “se mostrar” e “ouvir gracinhas na rua”. Até mesmo uma mãe que amamenta o filho num espaço público recebe críticas. Você acha que nos damos conta dessas desigualdades corriqueiras?

Letícia Bahia > Em geral não. Nós já nascemos em uma sociedade desigual, então essas coisas parecem naturais. Mas quando alguma coisa começa a fazer você se questionar – e a gente quer que o #mamilolivre seja um desses gatilhos – é um caminho sem volta. Aconteceu e acontece comigo. É extremamente doloroso, porque você se dá conta de infinitas situações em que teve seus direitos negados e não esperneou, simplesmente porque não se deu conta. Mas o Feminismo está em alta, o que significa que cada vez mais mulheres – e homens – estão questionando essas desigualdades.

Pimentaria > Você e a Julia se juntaram para criar o Manifesto do #mamilolivreDo que se trata, na prática, e o que vocês pretendem com ele?

Letícia Bahia > É um texto curto e enxuto que explica porque estamos espalhando tetas pelas ruas. Sabemos que as imagens chocam muita gente – e a ideia é essa mesmo – mas o manifesto estrutura a reflexão por trás das fotos. Então o #mamilolivre tem essas duas dimensões: as imagens provocam uma coisa mais estomacal, um susto, e o manifesto complementa com um questionamento que faça as pessoas pensarem. Ele fala fundamentalmente de igualdade e de respeito à diversidade. Alguém discorda que essas duas coisas podem fazer o mundo muito melhor?

Pimentaria > O corpo feminino tende a ser visto sempre com uma conotação erótica, ao contrário do que acontece com o masculino. Por que?

Letícia Bahia > A História explica: a dominação do homem sobre a mulher começa com o advento da propriedade privada. É que, quanto mais filhos o sujeito tivesse, mais mão de obra ele teria pra trabalhar em suas terras. Mas como garantir que aqueles filhos eram realmente seus? Simples, é só prender a mulher em casa. Nós fomos definidas pelos homens a partir de necessidades dos homens – algo que Simone de Beauvoir explica lindamente em “O Segundo Sexo”. Historicamente, o papel da mulher é oferecer filhos ao homem. Assim sendo, nada mais natural do que sermos vistas como objetos sexuais. Somos herdeiros disso, por isso ainda hoje é tão difcíl para uma mulher escapar desse olhar erótico.

O disco "Selvática", da cantora Karina Buhr, também foi censurado pelo Facebook.

O disco “Selvática”, da cantora Karina Buhr, também foi censurado pelo Facebook.

Pimentaria > Imagino que o projeto tenha sido censurado nas redes sociais. Foi? Como vocês enxergam esse bloqueio/castigo?

Letícia Bahia > O projeto está repercutindo muito, e vai repercutir ainda mais porque os painéis estão só começando. Muita gente tem sido bloqueada pelo Facebook por compartilhar materiais nossos. Eu mesma estou no meu segundo dia de castigo, sem poder postar ou comentar nada no Facebook. Nós já sabíamos que isso aconteceria, mas é frustrante. Criamos uma petição para que o Facebook libere os mamilos femininos, assim como já libera os masculinos. A cantora Karina Buhr acabou de ter a capa de seu disco censurada porque mostrava peitos, e isso também está repercutindo muito, então esse realmente é um momento em que as pessoas estão questionando essa proibição mais do que nunca. É hora de virar a mesa.

*LEIA MAIS:

– “Não é mulher pra casar”. Poxa, jura?

– Pesquisa: 48% acham errado “a mulher sair sozinha”.

– Masturbação feminina ainda é tabu? Ah, se toca…

– Você tem intimidade com a sua vagina?

– Carta à Fran, a menina massacrada por um vídeo de celular

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6 comentários

  1. agata

    Ainda temos um longa caminhada,para acabar de vez com o sexismo na sociedade,mas acho que os países latinos aindăo estão bem atrasados,a Suécia é 1 lugar no mundo até na igualdade de gênero…

  2. Marco

    Já que é pra lutar por igualdade em tudo, por que não lutar pelo direito de mijar em pé, pelo direito de não menstruar, pelo direito de igualdade com relação ao tempo de trabalho para aposentadoria. Não queiram tornar iguais os diferentes.

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