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“A justiça autorizou o aborto dos meus gêmeos siameses, mas eles sempre viverão em mim”

(Thinkstock)

Gisela* é jornalista, tem 29 anos, minha amiga dos tempos de faculdade. Casada há quatro anos, está com Denis* há uma década. Eles planejaram o primeiro filho no início do ano passado, engravidaram logo e transbordaram de alegria. “Um amor que já não cabe em dois corações”. Foi assim que ela lhe contou do resultado positivo. Dias atrás, Gisela me procurou porque queria contar uma história – algo que a fez repensar a vida, a maternidade, a mulher que é. Jamais imaginei o que viria dali em diante. Gisela e Denis passaram por um aborto autorizado pela justiça após descobrirem que seus gêmeos eram siameses. Eles dividiam, entre outras coisas, o coração. Não tinham chances de sobreviver e a mãe poderia morrer se seguisse com a gestação. O profundo relato que ela confiou a mim, reproduzido abaixo, me dilacerou. Dizem que a dor, Gisela e Denis, vem na medida da nossa força. Vocês são de aço.

Sempre planejei ter o primeiro filho antes dos trinta anos. Em 2015, nós resolvemos que era a hora. Eu já não tomava pílula porque me causava enxaqueca. A partir de janeiro, fizemos exames e constatamos que estava tudo certo com a nossa saúde. Comecei a tomar o ácido fólico [recomendado para evitar problemas com a mãe e o bebê], fomos para a Disney e essa viagem dos nossos sonhos marcou o início das tentativas de engravidar. Assim que voltamos, no final de abril, a menstruação atrasou. Fiz o teste de farmácia, o de sangue em laboratório e não contei nada para o Denis. Queria fazer uma surpresa, então comprei um macacãozinho e escrevi numa foto nossa que “o amor cresceu e já não cabe mais em dois corações!”. Ele ficou em choque porque não imaginávamos que aconteceria tão rápido.

O primeiro teste de gravidez, desses de farmácia, deu uma segunda linha tão fraca que ela não teve certeza se era positivo (Divulgação / Arquivo pessoal)

Fomos juntos na consulta com a ginecologista. No primeiro ultrassom, quando eu estava com cerca de quatro semanas de gravidez, vimos apenas uma semente. Nada de batimentos. A médica disse que era normal, muito cedo ainda para escutar. Contamos para a família e amigos. Foi uma loucura, curtimos a reação de cada um! Estávamos esvaziando o quarto que seria do bebê, ainda não tínhamos comprado nada, quando fui para o segundo ultrassom. Já estava com onze semanas, era um sábado de manhã. Vimos duas cabeças. “Vocês sabem que são gêmeos?”, a médica avisou. Fomos tomados por um êxtase no que me pareceu um longo tempo, embora tenham sido só alguns minutos.

No primeiro ultrassom, apenas uma “semente” que não tinha batimentos cardíacos – segundo a médica, era “normal” para 5 semanas de gravidez (Divulgação / Arquivo Pessoal)

De repente, a voz da médica mudou. Passou para um tom de urgência e preocupação: “São siameses unidos pelo tórax”. Ficamos sem reação. Ouvimos o coração, ou os corações. Ela terminou o exame e nos pediu para esperar que imprimiria o resultado na hora, em vez de esperarmos até a segunda-feira. Na sala de espera do laboratório, meu chão se abriu e eu me vi caindo. Crianças corriam de um lado para o outro, bebês no colo dos pais. Meus filhos não seriam perfeitinhos, sofreriam muito, nunca teriam uma vida normal nem correriam como aquelas crianças. “Como vai ser? Como lido com isso?”, era tudo o que eu pensava. Na volta pra casa, eu só chorava e Denis tentava me acalmar. Ele ligou pra minha mãe nos encontrar e chorei no colo dela. Diante do ultrassom, ela sugeriu a primeira ideia de aborto. Mas eu estava convicta de que não faria nada sem ter certeza das chances deles nesse mundo, sem lutar muito por eles. Abortaria só se tivesse alguma coisa mais grave com eles, algum risco para mim também.

Com 12 semanas de gravidez, uma ultrassonografia detectou gêmeos siameses unidos pelo tórax (Divulgação / Arquivo Pessoal)

Contei para amigas mais próximas por mensagem – simplesmente não conseguia falar sem chorar. Denis e minha mãe avisaram a família porque era dolorido demais pra mim. O choque de todos foi grande: queriam ajudar, não sabiam como. Minha ginecologista indicou geneticistas e especialistas em medicina fetal. Pesquisei vários casos de siameses, os casos com sucesso na cirurgia de separação eram bem mais simples. Não havia histórico de malformação desse tipo nas nossas famílias. Segundo os médicos, a chance de eu ter engravidado de siameses era menor do que ganhar na loteria. Houve um problema na divisão das células que não foi causado por fator genético. Conseguimos consulta com uma chefe de departamento do Hospital das Clínicas (SP), que detectou: meus filhos dividiam uma parte do coração, era como um coração e meio. Um dos gêmeos era menor e mais fraco. Além disso, havia um aumento considerável do líquido amniótico, o que significava uma possível Síndrome de Down ou outra deficiência.

Ela praticamente aconselhou o aborto. Apesar de frisar que a escolha era minha, deixou claro que eu corria riscos e eles não sairiam da UTI neonatal se nascessem – talvez nem aguentassem a gestação inteira. Teria que fazer uma cesárea, e eu queria tanto parto normal que havia até pesquisado doula. Denis e minha mãe se convenceram de que o aborto era a opção mais razoável, mas eu não estava convencida de nada! Não sou exatamente religiosa, mas acredito num plano espiritual e em uma força maior. Me perguntava: “Por que Deus colocaria duas crianças no mundo para sofrerem assim? Por outro lado, um aborto não seria impedi-los de cumprirem então essa missão?”. Minha ginecologista abandonou o meu caso porque nunca tinha visto algo parecido e não apoiava o aborto. Depois eu soube que houve negligência médica porque, ao não ouvir os batimentos cardíacos no primeiro ultrassom, ela deveria ter pedido outro logo nas semanas seguintes. Sempre tive horror à ideia do aborto, mas já achava que cada mulher deve ter o direito de escolher. Eu queria a autorização da justiça porque não estava fazendo nada de errado. Era o meu amor de mãe pelos meus filhos que gritava para poupá-los de tamanho sofrimento! Paralelo a esse drama pessoal, pedi licença médica para me afastar do trabalho. Não tinha a menor condição de me focar nas tarefas e as pessoas me davam parabéns porque sabiam apenas que eu estava grávida.

Imagem na 13 semana revelou que os bebês compartilhavam parte do coração, o que reduzia dramaticamente a chance de sobrevivência (Divulgação / Arquivo Pessoal)

O aborto é proibido no Brasil. Eu teria que pedir autorização para a justiça, anexando todos os laudos médicos e psicológicos, para submeter a uma análise processual. Eu tinha que fazer isso até a 24ª semana para induzirem ao parto “normal”, o que nesta situação é chamado de “aborto espontâneo”. Do contrário, precisaria levar a gestação até 8 meses, quando marcariam a cesárea e eles iriam para a UTI. E o tempo passava. Eu me olhava no espelho: meu corpo ia mudando muito rápido, e eu sofria por não poder curtir isso. Decidi dar entrada no tal processo. Adivinha? A juíza negou! Pediu mais documentos que comprovassem que eu corria o risco de morrer. Outro médico, maravilhoso, me apoiou e explicou que eu corria o risco de ficar estéril, de ter hemorragia durante o parto e não sobreviver, entre outras coisas. Uma psiquiatra atestou minha depressão, acrescentando que levar a gravidez até o fim e perdê-los seria dolorido demais. Anexamos tudo ao processo e aguardamos.

Nesse meio tempo, visitei uma clínica de aborto que cobrava uma fortuna pelo procedimento e dizia, sem cerimônia, que era “bem tranquilo”. Meus advogados recorreram e a juíza finalmente autorizou, embora a promotora tenha negado novamente. Fui julgada por outras mulheres, elas me colocaram contra a parede questionando meus valores! No dia seguinte à autorização judicial, fui ao Hospital das Clínicas para a primeira fase: deram uma injeção no coraçãozinho deles para que parassem de bater. Chorei pelo fim naquela maca. Para as pessoas, só tive coragem de contar que o coração deles parou naturalmente. Em até quatro semanas, meu corpo deveria perceber que já não havia mais batimentos e provocaria um aborto espontâneo. Não foi isso que aconteceu. Dois dias antes de terminar esse prazo tive um sangramento. No hospital, me sugeriram internar e induzir o aborto. Me botaram num quarto no meio da maternidade, com berço e tudo! Pedi que tirassem imediatamente dali. Enfiaram comprimidos em mim para dilatação do útero e as enfermeiras apareciam de hora em hora. Era uma tortura ouvir os choros dos bebês nos quartos ao lado – eu não sairia do hospital pensando em fraldas ou em amamentar.

Os médicos foram gentis: diziam que eu não precisava sentir dor, que já tinha passado por muita coisa. No dia seguinte, na hora do almoço, Denis foi para casa tomar um banho e minha mãe o substituiu. Comecei a sentir cólicas fortes. Eram as contrações. Pedi qualquer coisa que fizesse aquela dor diminuir e não me deram nada. A enfermeira dizia para eu fazer força, mas não conseguia. Chorei pensando nos meus bebês me deixando. Um apego inexplicável ao que já nem existia mais, meu sonho de ser mãe, minha gravidez tão desejada, tudo acabava ali. E aquela onda de pesar, toda a história que vivi nos últimos meses passaram pela minha cabeça e não me deixavam fazer força. Eu dizia que doía e chorava, mas o que doía mesmo era meu coração. Quando finalmente consegui me concentrar, tudo aconteceu muito rápido. Eles ‘nasceram’ de parto normal, sem anestesia e eu não quis ver. O Denis não chegou a tempo de estar ao meu lado naquele momento – talvez tenha sido melhor assim. Minha mãe estava comigo. Me levaram sozinha a uma sala fria de azulejos que parecia um açougue, antes de seguir para a curetagem. Era 26 de outubro de 2015. Mas aquele pesadelo parecia não acabar. Continuei produzindo leite dias depois…

Era para eu ser mãe de dois meninos. Fizemos os testes genéticos, e está tudo bem conosco. A necropsia constatou que eles dividiam o fígado também. Não me arrependo do aborto e trabalhei isso na terapia. Ouvi os maiores especialistas, meus filhos não sobreviveriam. Denis e eu ficamos mais fortes como casal. Ele segurou firme meus surtos e minha depressão, respeitou meus momentos, apoiou incondicionalmente – assim como meus irmãos e família. Algumas amigas se afastaram, provavelmente por não entenderem que eu necessitava de silêncio ou por não saberem como lidar com essa situação. Denis, que morria de medo de não estar preparado para ser pai, cresceu e amadureceu ainda mais. Queremos tentar engravidar de novo no final deste ano. Ainda choro pela perda, mas sinto que estou pronta para a próxima. Sempre serei mãe desses dois meninos. Senti eles mexerem na minha barriga! É um laço inexplicável.

**Os nomes foram alterados para preservar a identidade do casal.

**Este post foi originalmente publicado na coluna da Nath no Yahoo.

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Comentários
  • Nossa, que tristeza! Ela foi muito corajosa! <3

    8 de maio de 2016

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