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Pimenta no dos outros é refresco: o flagra de Adnet e a canonização em massa dos brasileiros

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Pimenta no dos outros é refresco: o flagra de Adnet e a canonização em massa dos brasileiros

Alô, Papa Francisco? Sua santidade está perdendo uma grandíssima oportunidade. É que, na semana passada, vieram à tona milhares (senão milhões) de SANTOS BRASILEIROS! Proponho uma canonização em massa desses seres que não se consideram meramente HUMANOS – essa espécie de gentinha tão complexa e falha. Explico: os sites de celebridades divulgaram a foto do humorista Marcelo Adnet beijando uma mulher durante uma noitada com amigos no Leblon. Adnet é casado com Dani Calabresa.

Adnet e Calabresa

Adnet e Calabresa: “foi mal aí, mas isso não é da sua conta”

Assim se deu o rebuliço nas redes sociais. Era um tal de “nossa, estou decepcionada, gostava dele” ou “canalha traidor, coitada da sua mulher”. Donos da verdade universal, esses santos meteram o bedelho e o dedo em riste na relação do casal. Porque, do alto de seus pedestais divinos, se sentem no direito de julgar a vida alheia. Eu, que não sou nenhuma Madre Teresa de Calcutá, lamentei a crucificação de Adnet. E que ele precisasse vir a público dar satisfações e pedir desculpas pelo flagra do paparazzo. Achei que só devesse isso à própria esposa.

Queira perdoar a minha ironia. Não encontrei outra saída depois de ler uma enxurrada de comentários sobre o assunto na internet. Os argumentos de quem apedreja são tantos que resolvi escrever esse texto para propor uma pequena reflexão àqueles que seguem o meu trabalho. Longe de mim, Papa Francisco, discursar aqui como quem detém um latifúndio no paraíso. Infelizmente ou felizmente, já errei pra caralho durante a minha reles existência – veja, sequer consigo parar de falar palavrão! Mas, se houver apenas uma barraca lá em cima pra mim, dessas de camping mesmo (nem precisa ter vista), já estou no lucro…

1. “Você acha bonito botar chifres na sua mulher? Não pensou no sofrimento dela?”

Não quero chocar vocês, MAS preciso contar. Alguns relacionamentos não são pautados exclusivamente pela monogamia. Cada casal tem um “contrato” do que é ou não permitido. Suponhamos que, no casamento de Adnet e Dani, ficadas e sexo casual com outras pessoas não sejam motivo para o término. Que eles consigam separar amor de aventuras eventuais e tenham acordado o seguinte: “olha, amor, se acontecer… eu não quero ficar sabendo”. Que, para os dois, mais importante do que a fidelidade seja a parceria. Quem disse que a Dani não está CAGANDO para o rótulo de CORNA? Ou que ela também não dê suas escapadas e tudo bem para o Adnet? Vou além. Vamos imaginar que não seja nada disso e a Dani esteja sofrendo com essa traição.

Ninguém aí nunca errou? Nunca teve um desejo proibido ou se sentiu atraído por uma pessoa que não seja seu amor? Nunca fez escolhas erradas? Nunca se deixou levar, completamente embriagado pelas sensações, sem parar pra pensar racionalmente nas consequências? Nunca mentiu ou omitiu sobre qualquer coisa (entram aqui até orgasmos fingidos)? Um homem ou uma mulher que trai se transforma imediatamente numa pessoa sem caráter e sem qualidades? Uma atitude questionável é capaz de anular todas as outras corretas? “Mas então, Nath, você está fazendo uma apologia à infidelidade e colocando o cara como coitadinho?” Não, gente. Estou mostrando que a vida não é preta e branca, existem muitas nuances de cinzas. Cada um sabe a dor e a delícia das decisões que toma.

Ele não tinha obrigação nenhuma de pedir desculpas em público.

Ele falou no Twitter após o flagra. Mas não tinha obrigação nenhuma de pedir desculpas em público.

2. “Esse cara não tem caráter! Pior que eu gostava dele como ator…”
O Adnet é seu marido? Seu amigo? Seu irmão? Seu pai? Ah, tá, ele é só um ator que você vê na televisão ou no teatro. Alguém com quem você não tem nenhuma relação íntima, mas ACHA que conhece. O que é como ator não tem necessariamente a ver com o que ele é no âmbito pessoal. Se você descobrisse, por exemplo, que o Tony Ramos gosta de fio terra… Isso afetaria a forma como você enxerga o excelente trabalho dele na pele de dezenas de personagens? Ou, se o Antônio Fagundes saísse do armário e dissesse no Jornal Nacional que vai casar com outro homem, você se decepcionaria? Então você é um babaca. Uma coisa é assistir a um stand up do Adnet e, de repente, não achá-lo tão engraçado. Ver a participação dele em um filme e criticar seu desempenho profissional. Outra, beeeem diferente, é vaiar o que ele faz ou deixa de fazer nos bastidores. Simplesmente porque não é da sua conta.

3. “Bem feito, se fodeu. Agora vem reclamar? É uma figura PÚBLICA!”
Vamos fazer um exercício hipotético: eu, jornalista e blogueira de sexualidade, fico famosa. A ponto de dar autógrafos, tirar selfies com desconhecidos e me tornar alvo de paparazzi. Não escolhi ser uma figura pública como um integrante do Big Brother Brasil. O meu trabalho é que ganhou visibilidade. ÓBVIO que, quando eu saio na rua, sei que estou sendo reconhecida e observada. Mesmo assim, eu não me transformo em alguém especial. Eu continuo cortando as unhas do pé e tendo diarreia depois de me empanturrar de bolacha recheada.

Então não posso mais sair com uma calça velha de moletom? Não posso correr na praia de top para perder uns quilos sem que as minhas banhas sejam manchete? Não posso ficar puta com o atraso da companhia aérea e cobrar explicações do gerente? Não posso negar uma foto com um grupo de fãs porque estou morrendo de vontade de fazer xixi e não dá mais pra segurar? Eu sou uma figura PÚBLICA e, portanto, não tenho mais direito sobre a minha vida PRIVADA? Você pode botar um cidadão de plantão na porta da minha casa para clicar a minha família e controlar a minha rotina? Invertendo as perspectivas, o fotógrafo que INVADIU a privacidade de Adnet – assim como o jornalista que publicou a nota e os leitores que a compartilharam.

4. “O quê??? Ela perdoou? TROUXA”
Ué, mas você não é SANTO? Deveria dominar, mais do que ninguém, a arte do perdão. Só a Dani sabe o que o Adnet significa para ela, o que está em jogo neste exato momento. E pode ser que, daqui a um tempo, ela termine o relacionamento por outros motivos. Sei lá, porque ele é egoísta e não a ajuda nas tarefas domésticas. Porque ele desrespeitou a família dela. Porque ela detesta mania dele de mastigar com a boca aberta. De novo, só ela sabe o que está disposta a superar ou não. Trouxa é quem não aprendeu a vestir a pele do outro.

Meu recado final aos santos brasileiros, para o caso de um dia eu virar “famosa”: não, eu não quero saber se o meu marido me traiu. Porque, pra mim, é mais importante me sentir amada e desejada por ele. E, enquanto me sentir assim, eu não acabaria com a nossa história incrível por causa de uma pulada de cerca. Palavra de quem já traiu e foi traída. Ninguém, nem mesmo o Papa Francisco, pode se meter na minha vida e julgar o meu modo de pensar. Podem me chamar de corna – me ofende tanto quanto me chamar de samambaia.

*LEIA MAIS:
“A grama verdinha do vizinho e o nosso mato feioso”
“Catherine Hakim diz que ter um caso faz bem ao casamento”

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Comentários
  • Incrível! O que esperar dessa mulher que domina as palavras como ninguém!!!
    Te admiro, Na!

    11 de novembro de 2014
  • Apoiadíssimo! Cada um sabe da sua vida, quem somos nós pra julgar o outro …

    12 de novembro de 2014
  • Matou à pau! Penso exatamente dessa forma. Todos estamos sujeitos a trair e/ou sermos traídos. Aliás, não sou lá muito adepto dessa palavra. Traição, em meu sentir, é ser desleal, escamotear sentimentos e ter atitudes fingidas. Onde mora a verdade, ainda que dura, não há traição. Cada um tem o chifre que merece. Se ele dói ou não, cabe ao corno decidir. Sexo, não necessariamente se confunde com amor e cuidado. Isso tem outro nome…

    12 de novembro de 2014
  • Você mandou muito bem,! poucas vezes leio algo sobre celebridades mas, de alguma forma o post chamou minha atenção e parei para ler. Seres humanos hipócritas ! Pior ainda o cara que fotografou e o que publicou. Será que eles não tinham nada melhor para fazer?

    12 de novembro de 2014
  • Mais do que um ótimo texto: ótimo pensamento! Se todos fossem assim, a vida seria facinha, facinha. ..

    12 de novembro de 2014
  • Não costumo ler textos longos, principalmente de assuntos como este.
    Porém, não sei por qual motivo, resolvi ler até o final.
    E NÃO ME ARREPENDI !
    Te parabenizo pela clareza e pela lógica.

    15 de novembro de 2014
  • SE ELA QUE TIVESSE SIDO FLAGRADA BEIJANDO OUTRO HOMEM,APOSTO QUE ELE NUNCA IRIA PERDOAR ELA.AGORA COMO FOI ELE QUE TRAIU,ELA TEM O “DEVER” DE PERDOAR, PQ ELE É HOMEM É OS HOMENS SÃO ASSIM MESMO…SEI

    25 de novembro de 2014
  • Que mente mais fechada a sua Julie. Ela perdoa se e por que quer, não por que é mulher, casamento é muito mais que a relação de dois corpos; ta certa a Naty dizendo que não jogaria um relacionamento incrível pelo ralo por uma pulada de cerca.
    Ela seria sim, mais julgada que ele pelo fato de ser mulher por pessoas que pensam que podem julgar o erro dos outros

    26 de novembro de 2014
  • JULIANA MEU PROBLEMA N É ELA PERDOAR ELE,MAS SE ELA TIVESSE SIDO FLAGRADA BEIJANDO OUTRO CARA ESTANDO CASADA,ELE NUNCA IRIA PERDOAR ELA,E O CASAMENTO TERIA ACABADO ALI MESMO.A MINHA QUESTÃO É PQ AS MULHERES PODEM PERDOAR A TRAIÇÃO DOS SEUS PARCEIROS E ISSO ACABA SENDO COBRADO SOCIALMENTE,MAS UM HOMEM NUNCA PODE PERDOAR UMA TRAIÇÃO????? E A FAMÍLIA OS AMIGOS E A SOCIEDADE,COBRAM QUE ELE N PERDOE,PQ SENÃO ELE SERIA UM TROUXA.

    27 de novembro de 2014

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