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Entrevista: “Pode me chamar de sapatão mesmo”

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Entrevista: “Pode me chamar de sapatão mesmo”

Não me lembro se era uma manhã de sábado ou domingo – só tenho certeza de ter me atrasado para a primeira aula, como sempre. A turma da pós em educação sexual mal se conhecia. Eis que me incomodei com a opinião de uma professora e, ainda sonolenta, me atrevi a questioná-la. Outra garota se posicionou, com muito mais calma e educação do que eu. Mônica Saldanha. Falou sobre o preconceito que sentia na pele ao andar na rua de mãos dadas com a namorada. A primeira coisa que pensei, não nego, foi “ufa, temos pelo menos uma lésbica na sala”.

É que gosto da diversidade: eleva as discussões (e as pessoas) a outro patamar. Especialmente num curso sobre sexualidade humana. Só sei que me aproximei dela com alguma direta parecida com “oi, meu nome é Nathalia e eu quero ser sua amiga”. Bem terceira série mesmo. “Sald” tem apenas 24 anos, é formada em Letras. Talvez seja a pessoa da pós com quem mais dou risada e debato. Ultimamente, ela se debruçou sobre a “violência sexual contra lésbicas”, tema de um artigo científico que escreveu e de sua futura monografia.

sald– Você já me disse que gosta de ser chamada de sapatão. Por que?
Eu fui chamada de sapatão a vida toda, desde muito nova, e isso me fazia sentir completamente fora de lugar. Eu não era parte “dos meninos” e nem “das meninas”, eu era a sapatão. Descobrir que eu era uma pessoa normal e que existiam outras meninas como eu foi uma das melhores sensações da minha adolescência, ser sapatão deixou de ser um peso. Hoje, se alguém me olha com desprezo e me chama de sapatão, ao invés de me sentir ofendida, eu acho graça e respondo alguma coisa do tipo “Nossa, obrigada por me avisar. Eu realmente não sabia. Agora tá tudo explicado”.

– Quando e como você percebeu que seu afeto e seu desejo eram voltados para meninas?
Eu fui trouxa de mulher a vida inteira, com seis ou sete anos – na pré escola – eu dava meu biscoito recheado pras meninas e acabava comendo maçã verde, porque eu queria agradar, porque eu gostava delas. Bem, bem trouxa. A primeira menina por quem eu me lembro de sentir atração, com consciência de que não era igual ao que eu sentia pelas outras, tinha dez anos; eu tinha sete. Ela namorava um colega de sala, o Gabriel. Eu fiquei com ódio de todo garoto chamado Gabriel durante anos. Mas a minha primeira experiência gay foi bem mais velha, aos 17.

– Muitas pessoas acham que se trata de uma escolha. O que você diria a elas?
Ninguém escolhe desejar, se sentir atraído por alguém ou alguma coisa. Não é uma coisa racional, então não pode ser uma escolha. Se existe uma escolha, ela está na decisão de viver a sua sexualidade com plenitude, de viver a si mesmo com plenitude. Então vou ser um pouquinho polêmica, correndo o risco de ser mal interpretada: gostar de mulheres não é uma escolha, mas em alguns contextos ser lésbica é. Para mim, se declarar lésbica tem muito mais a ver com a postura que você tem em relação à sua sexualidade, ao seu direito de dispor do seu corpo, ao seu direito de desejar de forma livre, independente do que te ensinaram. Para mim, ser lésbica é também um posicionamento político de liberdade sexual.

– Há quem também fique louco de vontade pra perguntar: “não faz falta um pênis durante o sexo?”
Com toda a sinceridade do mundo: não faz falta nenhuma. O sexo hetero é muito centrado no pau, parece que se o pau do cara não tá diretamente envolvido no que tá acontecendo, não é sexo. Entre mulheres a relação envolve muito mais. E eu acho que se os homens aprendessem a desvincular o sexo do próprio pau por cinco minutos pelo menos, a qualidade das relações deles aumentaria muito. Isso não quer dizer que não pode ter um pau numa relação lésbica: você só precisa comprar. É legal ter a possibilidade de fazer coisas diferentes, é legal ter liberdade pra querer um pau na sua relação (ou não). E a melhor parte é que você pode escolher o tamanho, o formato, a cor, o material (tem cyberskin, gente, parece pele de verdade), você pode ter quantos paus você quiser, você pode usar em um dia e nem olhar pra ele no outro. Parem de fazer do pau uma questão tão importante, o mundo não gira em torno do pau: ele não é a melhor nem a pior coisa do mundo.

– No “estupro corretivo”, o abusador costuma dizer para a vítima: “Você vai aprender a gostar de homem”. A sua tese de pós-graduação em educação sexual será sobre violência sexual contra lésbicas. Por que ela acontece?
Na verdade, o estupro corretivo não é tão diferente do estupro de mulheres hetero: é uma demonstração de poder e posse sobre o corpo de outra pessoa. Ambos acontecem porque o homem acredita que o corpo da mulher tem que ser um espaço aberto pra ele, que ele tem direitos sobre o corpo feminino que não podem ser negados. O estupro corretivo acontece justamente porque a lésbica nega. A ideia de que uma mulher se coloca em posição de igualdade de poder, em que a vontade dela vale mais do que a dele (porque o corpo é dela pra dispor como bem entender), é uma afronta a esse “direito subjetivo” que o homem pensa ter. O estupro é uma forma de violência que, no caso da lésbica, é usado para punir e coagir o comportamento transgressor da mulher em relação à dominação do homem. “Vou te estuprar pra você aprender a ser mulher” carrega a ideia de que só é mulher quem está vulnerável à sexualidade do homem, de que pra ser mulher você precisa ser um playground pro pau do cara.

– Embora pareça gritantemente ÓBVIO, vamos desenhar: alguma lésbica deixa de ser lésbica porque foi penetrada à força por um pau?
O que é feito contra a minha vontade, não diz nada sobre mim, diz muito sobre quem fez. Ser forçada a fazer sexo com um homem não faz com que uma lésbica passe a se interessar por homens, não faz com que ela seja menos lésbica; só faz dele um estuprador. A orientação sexual é uma questão de desejo, de sexo; o estupro é uma questão de poder, de dominação. Mas mesmo que uma lésbica se interesse casualmente por um homem e deseje transar com ele, eu não acredito que isso faça dela menos lésbica. De novo: o pau não é um negócio tão importante assim, gente.

– As estatísticas afirmam que 6% das vítimas de estupro que procuraram o serviço de denúncia do governo federal são lésbicas – e isso teria motivado o crime. O que a sociedade precisa URGENTEMENTE fazer pode proteger todas as mulheres, gays ou não?
Socialmente, precisamos conscientizar os homens de que eles não são donos dos corpos das mulheres, que mulheres não são um instrumento para a satisfação sexual. Também é importante conscientizar as mulheres de que elas são donas da própria sexualidade, que elas têm a prerrogativa de escolher com quem se relacionar ou não. Quando homens tiverem a consciência de que a mulher é um ser humano – com vontade, autonomia, direito sobre o próprio corpo, desejo – eles passarão a respeitar as escolhas femininas, mesmo que essa escolha seja a de não se relacionar com ele, de não se submeter à vontade dele. Basicamente, homens precisam aprender a ouvir “Não”.

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Comentários
  • que entrevista maravilhosa!

    13 de novembro de 2014
  • Minha amiga, arrasando como sempre!

    13 de novembro de 2014
  • Gente… quando digo, que nós mulheres é quem temos o poder duvidam… Agora nos falta realmente enquanto mães, educadoras e parte integrante desta sociedade ajudar a formar homens de fato… Porque macho já está ultrapassado… Adorei a moça e estamos junto pelo direito de dizer “não” e ele ser um NÃO…..

    14 de novembro de 2014
  • Como lésbica e, principalmente, como mulher, me senti muito bem representada.

    15 de novembro de 2014
  • Gente, que mulher inteligente! Parabéns pela entrevista, muito clara e esclarecedora.

    27 de fevereiro de 2015

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