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Entrevistei um padre – ou “perdoa meus pecados?”

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Entrevistei um padre – ou “perdoa meus pecados?”

Perdi alguns alqueires no céu, minha gente. Não que eu tenha um latifúndio por lá – estou bem consciente dos meus pecados. Fiz o ensino fundamental num colégio de freiras, embora não seja nada praticante nem me identifique mais com o catolicismo (com todo respeito!). Mas, vejam, eu perguntei a um padre se ele se masturba. Antes de ajoelhar no milho e rezar 50 ave-marias pela ousadia, preciso contar para vocês como chegamos até aqui.

rafael contini

Meu colega na pós de sexualidade é…padre e cantor. Sim, temos um Fábio de Melo.

No final de semana passado, comecei a pós-graduação em educação sexual. Um por um, os 35 alunos foram se apresentando: psicólogas, médicas, donas de sex shops, jornalistas, assistentes sociais… Eu estava achando divina tamanha diversidade de formações. Então um moço alto e moreno, de cabelos cacheados e olhos azuis, levantou. Pela expressão de boa parte da mulherada, desconfio que se sentiram nas nuvens com um colega de sala daqueles. “Bom dia, meu nome é Rafael, sou músico e padre”, disse. Ouviu-se um coro angelical, algo como “óóóóóóóóó”. Sim, nós temos um Fábio de Melo.

Não resisti a me aproximar dele no primeiro intervalo. Precisava parabenizá-lo pela coragem. A próxima aula incluiria o estudo da anatomia dos genitais – assim, só pra começar a brincadeira. Durante uma disciplina sobre hormônios, uma professora que não havia participado das apresentações quis interagir com a sala: “Por exemplo, como você se prepara para seduzir alguém?”. Disparou essa pro Rafael. E eu praticamente pulando da janela pra não vê-lo crucificado sob gargalhadas. “Ah, nãããão, logo ELE?”, pensei. Ninguém conseguiu salvá-lo a tempo. Bonitinho que é, respondeu: “Tomo banho”.

Ele topou ser entrevistado pelo Pimentaria, mesmo sabendo que as questões seriam picantes. Aos risos, pediu apenas que eu não o “botasse na fogueira”. Candidatas à Hilda Furacão: retirem a senha no altar, façam fila indiana e bebam um cálice de vinho enquanto aguardam. Rafael Contini, de 29 anos, parece bem convicto de sua escolha sacerdotal.

– Por que você virou padre?

Na adolescência, eu queria ser médico anestesista. Estudava para prestar vestibular, mas desde os 17 anos eu tinha um trabalho pastoral com moradores de rua na minha cidade, Presidente Prudente (interior de São Paulo). Era um movimento social ligado à igreja e acabei me envolvendo mesmo, me tornei uma liderança. Meus pais frequentam a missa aos finais de semana, tive uma formação bem humana dentro de casa. Mas eles nunca imaginaram que eu fosse me interessar pelo seminário.

– Mas a sua adolescência foi “normal”?

Sim, eu tive um namoro de quatro meses e vários rolos. Vivi todas as experiências próprias da juventude. Como sou alto de olhos claros e competia na natação, sempre chamei atenção das meninas: era o noivo das festas juninas, o protagonista das peças de teatro, essas coisas… Cheguei a trabalhar um pouco como modelo. Mas eu me sentia preenchido de verdade com a ONG, então quis estudar para ser padre.

igreja

Rafael reza missas de verdade – e a mulherada suspira de joelhos.

– Como funciona isso?

Não basta a vocação, é algo construído também. Eu fiz um ano de acompanhamento na igreja católica até decidir – são pequenos encontros com padres, psicólogos, professores. Fui admitido para os dez anos de formação. Fiz três anos de filosofia, quatro de teologia e dois de estágio na pastoral. Estou no mesmo local até hoje, um dos bairros mais perigosos do Estado, com muito tráfico e alto índice de criminalidade.

– Por que você quis fazer uma pós-graduação em sexualidade?

Para entender melhor o ser humano. Eu faço atendimentos à população, é o que chamamos “direção espiritual”, uma filosofia terapêutica para ajudar na resolução de conflitos. E a sexualidade está na raiz da maioria das questões que chegam a mim (orientação sexual, infidelidade etc). Quis estudar, me livrar de preconceitos, aberto a qualquer tipo de reflexão e crítica. Se a gente não tiver uma boa formação, acaba caindo na visão piegas de que tudo é o “demônio” ou “tentação”. Isso é muito simplório para dialogar com as pessoas.

– Como os dogmas da igreja influenciam os aconselhamentos que você dá?

Por exemplo: eu posso atender uma pessoa que está passando por um momento de infidelidade no casamento, apesar de todos os dogmas da igreja, acolhendo-a. Oriento a partir dos conflitos que ela está vivendo, sem condicionar a qualquer norma ou lei. Se ela me procurou, já se sente pecadora e quer um conforto. Ajudo a buscar o cerne da questão e encontrar soluções.

– Vou perguntar de forma mais direta: o sexo não é permitido antes do casamento, assim como a união de homossexuais…

Sim. Quando me procuram em relação a isso, eu digo que é preciso maturidade para compreender. Não sou eu que devo dizer quando a pessoa deve fazer isso, ela é livre para ter suas próprias escolhas. A Igreja tem uma proposta, da relação sexual dentro do casamento, isto não é um dogma, é uma proposta que leva o ser humano descobrir o essencial da vida, frente a uma sociedade erotizada-capitalista. Da mesma forma com os homoafetivos, Deus conhece o coração de cada pessoa, seus conflitos, lutas e desafios. Todos são e devem ser bem acolhidos em qualquer instituição, independente de qualquer coisa. A sociedade pena por viver o valor do respeito e da acolhida, isto reflete em todas as instituições. Como nosso Papa Francisco nos ensina: precisamos ver que o valor do ser humano é maior do que qualquer lei. Todos merecem ser amados e acolhidos!

Ele sublima os desejos sexuais pela música

Ele sublima os desejos sexuais por meio da música.

– Como um padre sublima o desejo sexual?

Tenho uma banda chamada “Cale o Ópio”, que mistura maracatu, MPB e pop rock. Vamos lançar nosso primeiro CD logo mais. Componho cerca de seis canções por semana sobre os conflitos do ser humano. Esse é o meu jeito de sublimar (risos). Para mim, é tranquilo lidar com essa questão sexual. Sou muito ligado à arte, tenho meus compromissos na igreja, pratico esportes, tenho muitos amigos. A sexualidade é muito mais do que o ato sexual em si, é toda a energia voltada para o mundo. Acham que padres são seres solitários, mas atendo tanta gente casada e com filhos que se sente sozinha.

– Pode se masturbar?

Não. A ideia é sublimar essa energia sexual em prol do trabalho pela comunidade. É uma proposta estranha para os dias atuais, né? (risos)

– Você perdeu a virgindade antes de entrar para o seminário?

Ai, ai, ai… (risos) O que eu devo responder? Não chegou ao ato sexual, mas vivi experiências próprias da adolescência.

– Já levou muita cantada?
Ah, elogiam da beleza e às vezes falam abertamente… Mas depende da minha postura, de como eu mostro a minha identidade religiosa. Deixo claro que sou padre, não devo ser o foco do desejo sexual. Até hoje, nunca pensei em desistir do sacerdócio. Não me sinto lesado por não poder fazer sexo ou ter filhos. Não fui obrigado a fazer essa escolha, me sinto útil e pleno assim.

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Comentários
  • É pra aplaudir de pé! Um padre, jovem, lindo, nos dias de hoje, tão focado no que escolheu como ‘vida’. Certeza que muitassss estão divididas entre prestar atenção nos conselhos do Padre e se merecem o inferno por quererem que ele largue o seminário por elas… ahahahah. Ótima a entrevista Nath!!! Traga sempre muitos personagens das suas aulas!

    14 de fevereiro de 2014
  • A entrevista foi excelente. Parabéns! Ahhh, mas que é um desperdíciozinho é kkkkkkkkkk

    14 de fevereiro de 2014
  • Muito legal! Isso só prova a diversidade de comportamento do nosso mundo. Cada um é livre pra escolher o que lhe faz sentir bem. Parabéns pela entrevista!

    14 de fevereiro de 2014
  • O Rafael me fez pensar que o mundo pode ter solução. É lindo ver um padre tão jovem e convicto num mundo tão conturbado. Realmente essa pós mudará muita coisa em nossas mentes e corações.

    14 de fevereiro de 2014
  • Parabéns pela entrevista! Nos dias de hoje ver uma rapaz jovem, inteligente e bonito querer seguir a carreira sacerdotal, é no mínimo intrigante pra mim – Eis a pergunta: Pq?
    Sim! Ele já respondeu que sente-se preenchido na sua escolha. Mas é intrigante!….rsrs

    14 de fevereiro de 2014
  • Como católica praticante e como sua leitora fiel, adorei a entrevista. Fico feliz de ver um padre de alta qualidade no cenário católico. Precisamos de padres assim! E quanto ao fato dele ter tantos “atributos” e, mesmo assim, optou pelo sacerdócio, não me causa espanto. Ele é revolucionário, tendo como exemplo o maior revoluvionário de todos, Jesus!! Beijos

    15 de fevereiro de 2014
    • *revolucionário

      15 de fevereiro de 2014
  • Entrevista fabulosa! Fiquei feliz que ainda existe espaço para o respeito e o verdadeiro amor ao próximo dentro da Igreja. Não tenho religião, admiro o posicionamento do padre e acredito que as religiões de forma geral precisam de líderes mais humanos, como ele. Parabéns pela entrevista, Nathalia!

    15 de fevereiro de 2014
  • Parabéns Nathalia! Excelente entrevista! Assuntos abordados de forma elegante e respondidos com muita ética! Parabéns também Rafael!
    abraços,
    Regina Campelo

    15 de fevereiro de 2014
  • Natália está matéria merece ir para revista Veja. Simplesmente espetacular. Rafael parabéns pela sua escolha e dedicação. Um grande abraço e muito sucesso.

    16 de fevereiro de 2014
  • Conheci o Padre Rafael no curso e, como cheguei atrasada na aula, fiquei abismada e excitada com a ideia de conviver com aquele homem lindo, com cara de bom moço… tamanha foi minha frustração quando descobri que ele é padre. Pensei: que pena, não vou nem poder paquerar esse lindo rapaz… brincadeiras à parte, devo dizer que trata-se de um homem elegante, carismático e tenho torcido muito pra que ele encontre o que busca e tenha cada vez mais convicção de sua vocação sacerdotal. Adorei a entrevista, gostei demais de conhecê-lo e, tenho certeza, que aprenderei muito com esse talento humano e surpreendente que é o Rafael. Deus abençoe seus caminhos.
    ERINEIDE.

    20 de fevereiro de 2014
  • Parabéns aos dois! Gostei muito e fiquei encantada com o profissionalismo da nossa companheira e com o ser maravilhoso que temos o prazer de ter em nossa sala !

    2 de março de 2014
  • Descobri o blog a pouco tempo e estou adorando ! lendo tudo e aprendendo também!
    Achei bem interessante o titulo desse post e para minha surpresa conheço o padre!
    Não não sou católica e não frequento a igreja! mas umas 2 ou 3 semanas antes desse post foi minha missa de formatura! e sim esse foi o padre que realizou a missa! (em Presidente Prudente)
    imagina meu susto quando li essa reportagem? mas achei muito legal!
    confesso que só participei da missa de formatura por causa das fotos ! (sim péssimo dizer isso eu sei mas e a verdade)
    Apesar de minha família ser católica nunca fui e não acredito nas mesmas coisas que eles ou sequer gosto de religião (ok não vamos entrar em detalhes)
    Mas pensei que iria dormir na missa ou ficar no meu celular e não! Foi muito boa a palavra dele !
    E essa entrevista mostra um pouco o que eu pude ver no padre !
    Não prega aquele Deus vingativo que muitas vezes vemos na igreja católica, e sim um Deus de amor que acolhe todas as pessoas!
    Muito legal a entrevista e parabéns Nathalia pela iniciativa e pelo blog que estou adorando !

    27 de agosto de 2014
  • Mais um padreco na mídia, no fundo o q ele quer é brilho e palco

    15 de outubro de 2015

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