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Se não falta informação, por que os jovens ignoram a camisinha?

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Se não falta informação, por que os jovens ignoram a camisinha?

Vivemos a maior epidemia de Aids no Brasil desde 1981. Somos um dos poucos países do mundo em que houve aumento de jovens infectados pelo HIV. Ao todo, somam-se por aqui 700 mil infectados – um em cada cinco nem se sabe portador do vírus. Falta informação na era da informação? Por que a geração nascida depois dos anos 1990 têm três vezes mais soropositivos do que nas décadas de seus pais e avós?

“Ninguém mais morre disso”, ouvi de um pré-adolescente de uma escola particular. Aliás, essa frase é comum nas palestras de educação sexual que realizo com adolescentes. “Ninguém” são sete pessoas por dia APENAS no estado de São Paulo. É verdade que o índice de mortalidade por Aids caiu, que as pesquisas pela cura estão avançadas, que já existe profilaxia para determinadas situações. “Só” isso justifica se expor deliberadamente ao HIV? Por que os adolescentes não usam camisinha, mesmo sabendo que ela os protegeria?

1.    Porque os pais se omitem

A esmagadora maioria dos pais se omite. Subestima os adolescentes, apostando que os filhos são “crianças demais” para tratar do assunto – no Brasil, perde-se a virgindade, em média, aos 15 anos; muito antes disso, essa molecada consome pornografia regularmente. Adota a tática do silêncio, como se não falar pudesse as dissipar dúvidas e angústias deles – quando o Google responde todas as perguntas de forma BEM explícita. Educamos mesmo em silêncio, dando a ideia de que sexo é feio, sujo, pecado. Estratégias terroristas, do tipo “você não tem idade para essas coisas” ou “vai ficar de castigo se eu pegar anticoncepcional na sua mochila”, também têm se mostrado bem pouco eficazes. Se a vontade vem, a gente sempre dá um jeito.

2.    Porque as escolas não levam educação sexual a sério

A batata quente passa de casa para a escola. Espera-se que as aulas de ciências deem conta do tema. E ai do professor que “falar baixaria” para o aluno – logo uma dúzia de mães ameaçam trocar de instituição porque “não pagam a mensalidade para ensinarem esses absurdos”. Não entendem que explicar como nascem os bebês é insuficiente, que uma disciplina de sexualidade não ensina posições sexuais. Insistem naquela ÚNICA e velha abordagem negativa: “cuidado porque sexo dá pereba ou filho indesejado”. Eles já descobriram que é gostoso, gente. Se pudermos escutá-los, saberemos que não usam camisinha “porque aperta” (há vários tamanhos, sabia?), “porque não sabem colocar direito” (que tal fazer atividades-teste com uma prótese peniana?), “porque ia perder a ereção” (vamos pensar na ansiedade pelo desempenho e em como a/o parceira/o pode ajudar nessa hora?), “porque não dá pra sentir nada” (talvez ponderar os prós e contras do método, sugerir modelos mais finos?).

3.    Porque a saúde pública falha

Especialmente com os adolescentes de baixa renda, aquela molecada da periferia que precisa do posto de saúde para conseguir camisinhas de graça. Nem sempre elas estão à mão, sem ter de dar satisfações a um funcionário. Quantas vezes ouvi de meninas(os) de 13, 14, 15 anos que lhes mandaram “voltar acompanhados dos pais”! Quem teria coragem? Então eles resolvem esse problema encapando o pênis com sacolé, o saquinho plástico de picolé artesanal. Quer dizer, QUANDO estão determinados a fazer sexo seguro, claro. Em geral, rola sem mesmo.

4.    Porque eles não têm medo da Aids

A época em que os ícones musicais Renato Russo e Cazuza trouxeram a público sua luta contra a Aids e acabaram morrendo por conta dela… simplesmente não faz parte da memória dessa geração de jovens. Não lhes causa qualquer impacto. O que a mídia noticia hoje são as pessoas que convivem há décadas com o HIV sem que as doenças oportunistas se manifestem. “É só tomar uns remédios todo dia” e “Já estão quase achando a cura”, argumentam. Estão muito mais preocupados com uma gravidez precoce e, pasmem, querem saber quantas vezes por mês dá para tomar a pílula do dia seguinte. Ou como fazer sexo anal sem dor.

5.    Porque se sentem imunes

Os outros são os outros. É o novo “só pega em puta e viado” dos anos 1980. Os jovens ainda acreditam que Aids é sinônimo de promiscuidade, de “dar pra geral”, de “comer prostituta”. O garoto da escola de classe média é “de confiança”, a menina da faculdade é “limpinha” etc. E a probabilidade de virar estatística está muito, muito longe de suas realidades. Roleta russa mode on.

No Dia Mundial de Luta contra Aids 2015, adoraria ver aprovada uma lei que obriga as instituições de ensino a incluir uma disciplina semanal de educação sexual, com direito à seleção e capacitação dos profissionais responsáveis por ministrá-las. Quem sabe em 2016?

*Este post foi originalmente publicado na coluna da Nath no Yahoo.

*LEIA MAIS:

– Todos os dias, minha mãe diz a alguém que o exame “deu reagente”

– “Heberson, eu sinto muito”

– “Não faça sexo”, o discurso equivocado dos pais

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Comentários
  • Nossa CHOQUEI,não sabia que no Brasil,o “negócio” estava sério desse jeito,mas os héteros,tem como se proteger,até os gays tem como usar camisinha,super de boa no sexo anal,quem se da mal realmente nessa história,são as mulheres lésbicas ou bissexuais,que continuam em pleno 2015 sem nenhuma alternativa “usável” para o sexo com outra mina,pq plástico de tatuagem na hora H,protegendo a perseguida ngm merece,e ngm usa…

    23 de dezembro de 2015
  • Primeiro, parabéns pelo texto, Nath. Mais uma vez muito bem escrito, direto e objetivo. A verdade é que a realidade da EDUCAÇÃO sexual nesse país é preocupante. Estamos no final do ano de 2015 e a grande maioria das pessoas ainda trata o sexo como algo sigiloso, com muitos pudores, proibido de se falar em público. Essas pessoas terão seus filhos, e esses futuros adolescentes continuarão a buscar no google e com os amiguinhos “experientes” as informações das quais precisam. Uma pena que poucos tenham a ~coragem?~de meus pais quando, lá pelos meus onze, doze anos, me compraram um livro daqueles tipo enciclopédia e o abriram na matéria de educação sexual me dizendo “leia tudo isso aqui. É muito importante. Qualquer coisa, pergunte.” e daí em diante nunca se apudoraram de falar sobre sexo comigo, e nem com minha irmã, diga-se de passagem. Enquanto hoje tenho colegas que com seus trinta anos de idade têm vergonha de pegar a cartela do anticoncepcional e tomar na frente dos amigos quando estão todos reunidos, ou morrem se o absorvente cai da bolsa, ou se deixam escapar que estão menstruadas, por que isso é “coisa de mulher”. Enquanto essa mentalidade não for mudada, estaremos fadados a conviver com os problemas que a falta de orientação sexual trazem. Lamentável.

    23 de dezembro de 2015

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