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Por tudo que aprendi, obrigada aos homens do passado

homenspassado

Por tudo que aprendi, obrigada aos homens do passado

Eu ainda usava lancheira quando experimentei o primeiro fora da minha vida. Era magrela, aparelhos nos dentes, cabelo desajeitado, não largava um diário com cadeado – que segredos podia guardar uma menina de dez anos? Ele era mais velho, estava na quinta série (!!!), tocava Paralamas do Sucesso na hora do recreio. E eu tinha CERTEZA que olhava pra mim naquele trecho da música Lanterna dos Afogados: “Eu tô te esperandoooooo… vê se não vai demoraaaaaar… ôôôô”. Dei para escrever bilhetinhos pro garoto. Até que ele encarregou uma amiga de me avisar que eu “não fazia o tipo dele”. Sofri pra caralho.

Lição #1: Eu não sou uma unanimidade. Bônus #1: Enxergamos indiretas que não existem.

Recebi um convite de aniversário e atazanei minha mãe o mês inteiro para me comprar uma roupa incrível. Estava decidida a perder o BV (boca virgem) com um amigo por quem meu coração acelerava. No dia do bailinho, durante a brincadeira da vassoura, ele me chamou para dançar. Pousei minhas mãos nos ombros dele, que segurou minha cintura. Chegou bem perto com aqueles óculos-fundo-de-garrafa e disse: “isso no seu nariz é uma espinha gigante? ”. Expectativa X Realidade. Tempos depois, meu primeiro namoradinho caminhava comigo do colégio até o portão de casa, quando disparou: “você é linda, mas não sabe beijar direito”.

Lição #2: Os homens podem ser cruéis. Bônus #2: Aprendi a usar corretivo + treinar a língua num copo com gelo.

Era um cara muito querido, desses especiais mesmo. Foi no início da adolescência e ele me tratava feito princesa. Economizava na mesada para encher meu quarto com bichos de pelúcia, buquês de flores e cartões apaixonados. Descobri o que era mão boba e amasso no elevador. Mas gostava dele porque ele gostava de mim, um sentimento tão frágil que acabou em traição. Aos 14 anos, confessei que havia ficado com outro numa viagem. Experimentei o proibido, a dor dele e uma baita culpa. Mas continuamos amigos.

Lição #3: O amor de um só não carrega dois; perdoar é pura nobreza de espírito. Bônus #3: EU posso ser cruel.

Acariciava a própria barriga por dentro da camiseta, uma forma de exibir despretensiosamente os gominhos conquistados graças à malhação. Não tinha papo nenhum, era monólogo. E eu lá, tentando achar brechas para lembrá-lo de que estava ali e talvez tivesse coisas interessantes para compartilhar. Chamou para um cinema e só aceitei porque queria me exibir diante das amigas – ele era pop, sarado, rico. Eu era uma tonta querendo me afirmar na galera. Mal entrei no carro, tasquei um selinho nele, que reclamou: “Você estragou todo o clima! ”.

Lição #4: Fuja de gente autocentrada. Bônus #4: Eles têm uma inacreditável necessidade de achar que estão no comando.

Aí eu o vi dentro de um carro, distraído, esperando por alguém. Até meus joelhos suaram. Nossos olhares cruzaram e foi paixão à primeira vista. Coisa de novela mesmo. Ele desceu, pegou meu telefone e passou de moto no dia seguinte. Difícil caçar palavras para explicar o que aconteceria nos próximos dois anos juntos. Um encontro de duas pessoas viscerais, aventureiras e inconstantes. Nos amamos com as tripas – e nos machucamos também com a irracionalidade delas. Eu urrava de ciúmes, ele socava para-brisas pelo mesmo motivo. Se o sexo era intenso, assim eram as brigas e as reconciliações. Então ele apareceu certa noite dizendo que não dava mais, me deu um abraço e foi embora. Com outra. Levei anos, raivosa, tentando entender.

Lição #5: A virtude está no meio termo: mais equilíbrio, por favor. Bônus #5: A possessividade estrangula o amor, o rancor envenena a vida.

Caí nos braços de um amigo. Porque ele era galinha, achei que não se importaria de ser usado. Usei seu colo, seus conselhos, sua companhia no bar, seu pau. Passamos momentos deliciosos e divertidos. A surpresa foi que tenha se apaixonado por mim. Eu, aquele trapo de mulher, oferecendo migalhas. Seria cômodo, mas injusto me envolver sério com ele. Às vezes é tentador deixar que o outro te cuide e convença de que vale a pena, né? Decidi que devíamos nos afastar…

Lição #6: Dói ser honesto consigo mesmo e com os outros. Bônus #6: O fim de um relacionamento é foda, mas tem gente bacana por aí interessada em te fazer superar.

E, quando a gente tá muito decepcionada, vem aquela fase “todo mundo nu, ninguém é de ninguém”. Bastava ter todos os dentes na boca que eu beijava. Foi um festival de erros e aberrações, como se precisasse de tantas muletas para reerguer a autoestima estendida no chão. Lembro de ter ido a uma festa e contabilizado que, entre todos os trinta convidados, NOVE eram ex-peguetes. Tudo bem, depois eu trabalhei essa ressaca moral na terapia. Nada contra quem passa o rodo com alegria – no meu caso, era um boicote às questões mal resolvidas. Nessa época, aprendi que a química pode não acontecer, que só pau grande não leva ao orgasmo, que não sou “menos” porque ele não quis um segundo encontro, que naturalidade e bom-humor são excitantes, além de outras mil coisas.

Lição #7: Pegar geral é muito libertador, mas às vezes esconde um vazio dentro da gente. Bônus #7: Quanto maior a diversidade e experiência no currículo, mais seletiva você se torna.

Todas essas histórias são verídicas. Há muitas outras. Agradeço a todos os homens que me fizeram ser quem eu sou hoje. Mesmo que sequer desconfiem. Que vocês, malaguetada, também consigam olhar com distanciamento para trás. Que vejam graça onde antes havia desgraça (hahaha). Tive vontade de escrever esse post dias atrás, enquanto conversava com o meu marido, entre goles de vinho. Falávamos das pessoas que passaram nas nossas vidas antes de nos conhecermos. Sem elas, concluímos, provavelmente não estaríamos juntos. Porque somos feitos desse emaranhado de relações, daquilo que experimentamos de bom e ruim. Como canta Jorge Vercilo, de quem não sou fã mas invejo por ter escrito: “Não se ofenda com meus amores de antes / todos tornaram-se pontes pra que eu chegasse a você”.

Vem ler mais:

A matemática do amor – ou sobre perder para ganhar

D.R.: paixão e medo discutem a relação

Inteligência emocional: você tem?

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Comentários
  • Aaaaaaah…seus textos salvando mais um dia chato de trabalho/estudo meu! ♥♥♥♥

    3 de junho de 2014
      • HAHAHAHA adorei!!! Que nada meu bem, a culpa é sua por trazer um pouquinho de sanidade e um fôlego em meio a essa maré de coisas chatas de fim de semestre pra fazer! Ler o Pimentaria é um dos poucos momentos de lazer que tenho, têm sido um oásis pra mim… Obrigada pelo carinho de sempre com a gente! Digoe repito: cada dia mais fã! ;*

        3 de junho de 2014
  • Realmente a gente as vezes esquece que todos os erros e desilusões amorosas só fizeram com que ficássemos mais fortes e seletiva com toda a certeza hahahahaha
    Tantas histórias…o passado está cheio de momentos catastróficos que hoje nos fazem rir…tudo na vida passa, se transforma e melhora…
    Adorei o post…muito legal! 😉

    3 de junho de 2014
  • Li seu texto com o sorriso no canto da boca relembrando as situações semelhantes que passei e como tudo está agora: o paquera bunitão que me deu fora e hoje está um cubu, o gatinho exxxxxxxxxxperto e pegador que levou o golpe da barriga da menina que conheceu na festa de ontem, o ex namorado que te esnobou e hoje não está fazendo nem para feira, o namorado docinho, bonzinho, que vc chifrou, largou e virou um excelente marido e um profissional super bem sucedido, o cara que falou, quando vc tinha 12 anos, que sua franja parecia do Chitãozinho e Xororó e te matou de raiva e de vergonha, mas fez vc mudar para sempre o seu corte de cabelo, o namorado riquinho que riu da sua cara quando vc, pobre, falou que iria prestar o verstibular mais concorrido da universidade….. Ahhhhhhhhh……vcs me fizeram muito bem!!!!

    3 de junho de 2014
  • Chitaozinho é sacanagem.

    7 de junho de 2014
  • Gostei, só não concordo com a parte de que “eles PRECISAM achar que estão no comando.” Isso varia de pessoa pra pessoa, as vezes é a mulher (se falarmos de um relacionamento heterossexual) que tem essa personalidade. Achei a colocação um pouco machista.

    15 de janeiro de 2016

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