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Por que até o pornô precisa de ética?

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Por que até o pornô precisa de ética?

(Getty Images)

James Deen é um dos atores pornôs mais famosos e bem pagos do mundo. Milhares de cenas gravadas, dezenas de prêmios, incontáveis réplicas de seus 22 centímetros – e pelo menos sete acusações de estupro que vieram à tona no final de 2015. Quem o denunciou? Suas colegas de trabalho. [“Duvido que essas putas não gostaram” ou “É contratada pra dar, não tem direito de reclamar”… Se você, leitor, segue a linha de raciocínio dos comentários anteriores… apenas não perca o seu tempo neste texto].

LAS VEGAS, NV - JANUARY 23: Adult film actor James Deen attends the 2016 Adult Video News Awards at the Hard Rock Hotel & Casino on January 23, 2016 in Las Vegas, Nevada. (Photo by Gabe Ginsberg/FilmMagic)
O ator pornô James Deen (Getty Images)

A estrela pornô Amber Rayne contou ao jornal Daily Beast que Deen lhe deu um murro na cara enquanto praticavam sexo anal em frente às câmeras. A brutalidade seguiu até que rasgou (literalmente) o ânus, sangrou a ponto de interromper a gravação. Outra atriz, Kora Peters, avisou Deen e todos nos bastidores que se recusava a fazer anal. Durante o take, ele a engasgou e forçou o ato. A equipe comemorou e o parabenizou. Tinham conseguido uma cena cara pelo preço de uma normal. Kora denunciou o episódio ao seu agente e ouviu que “deveria se sentir honrada por James querer tanto, já que é um dos melhores”.

Existe um conceito básico para que qualquer relação sexual não seja considerada estupro: CONSENTIMENTO. Se uma esposa diz para seu marido que não quer fazer anal e ele mete o maldito membro no orifício proibido, é estupro. O mesmo vale entre atores e atrizes pornôs. As coisas são combinadas antes do aviso “luz, câmera, ação”. Aliás, elas determinam palavras de segurança. Especialmente porque aquele gemido “não, para” muitas vezes faz parte da encenação. Pode ser, sei lá, “CINZA!” ou “GELO!”. Ao pronunciá-las, aconteça o que estiver acontecendo… tem que parar.

Com faturamento de bilhões de dólares, a indústria pornográfica começa a ser colocada contra a parede para adotar postura ética em vários aspectos. O abuso contra as mulheres é um deles. Em 2010, o estudo “Aggression and sexual behavior in best-selling pornography videos” analisou 304 cenas dos vídeos pornôs mais populares e em 88% delas havia agressão física. Entre os tipos mais frequentes: espancamento (75%), engasgos durante a prática do sexo oral no homem (54%), tapas (41%), sufocamento (28%). As mulheres eram o alvo da violência em 94% dos casos.

Algumas diretoras, incomodadas com essa condição sexista e degradante, criaram uma categoria que depois ficou conhecida como “pornô feminista”. Os filmes não trazem personagens que parecem bonecas infláveis com bocas e peitos mega artificiais, burrinhas e submissas, dispostas a só oferecer prazer e apanhar, fingindo orgasmos exorcistas. As atrizes são mais próximas da realidade de quem as assiste do outro lado da tela: peitos naturais, bundas com celulite, realizam fetiches femininos, recebem muito sexo oral e gozam de verdade. A tendência, afirmam especialistas e os próprios donos de produtoras mainstream, é que os filmes amadores (sem cenário nem roteirinho) superem de longe os concorrentes.

Ética pornô também significa proteger os atores e as atrizes contra doenças sexualmente transmissíveis. Ética pornô significa pensar na mensagem que a ausência da camisinha e o comportamento violento passa aos adolescentes – esses que consomem um monte de putaria pra acalmar os hormônios. Cindy Gallop, autora do livro Make Love Not Porn (Faça Amor, Não Pornô) explica que uma geração de jovens crescerá acreditando que aquilo que veem na pornografia é a forma como se deve praticar sexo. Alguns projetos estão pagando para casais de verdade se deixarem filmar enquanto transam, como quiserem, em seus próprios ambientes. Porque sexo tem a ver com fantasia, intimidade, diversão etc.

Não, não é a caretização da pornografia. Se um casal de atores em cena topar e adorar uma sequência sadomasoquista, por exemplo, ótimo. Se o enredo for algo mais hardcore e houver consentimento dos envolvidos, condições adequadas de trabalho e garantia de segurança… ok! O maior desafio dos interessados em regular a indústria, além de mudar toda a mentalidade/cultura da cadeia produtiva, é o custo. Como convencer consumidores a pagar por vídeos pornôs “éticos” se eles já estão acostumados a assistir de graça, pirateados e livres na internet, feitos de qualquer jeito?

***Este post foi originalmente publicado na coluna da Nath no Yahoo.

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