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“Perdoar não é esquecer”, diz terapeuta de casais

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“Perdoar não é esquecer”, diz terapeuta de casais

(Foto: Pixabay @rogerl01)

Desculpa, talvez você se ofenda com o que vem a seguir: você não é perfeito nem infalível. Não, não me arrependo do que disse. Então, se não me arrependo, meu pedido de desculpas não vale nada. Erramos ou temos que lidar com os erros do outro o tempo todo, especialmente nos nossos relacionamentos. Mas banalizamos nossos tropeços, muitas vezes sem refletir sobre eles, apenas repetindo por aí que “pô foi mal” e prometendo que “não vai acontecer de novo”.

Qual a sua capacidade de perdoar? O que seria imperdoável para ele (a)? Para o psiquiatra, psicanalista e terapeuta de família Moises Groisman talvez consigamos perdoar a pessoa, mas não perdoamos o ato cometido. Ele é autor de onze livros, incluindo “A arte de Perdoar – Terapia Sistêmica Breve no Casamento e na Infidelidade”, e criou um protocolo para ajudar casais a enfrentar ressentimentos responsáveis por crises conjugais.

– Quais as mágoas mais comuns entre os casais?
MOISES – Sem dúvidas, a infidelidade está em primeiro lugar. Mas existem outros ressentimentos que vão se acumulando, como críticas em relação ao outro por suas atitudes em determinados momentos. Por exemplo, ficar do lado de um filho ou da família contra o (a) parceiro (a): “Você não me defendeu quando sua mãe falou aquilo pra mim! ”. Todas as pessoas são atravessadas por uma cruz familiar, que é o encontro entre o nosso passado e o nosso presente. A linha vertical é a nossa origem, tudo que trazemos da nossa família. A linha horizontal é quem somos e o que vivemos agora – incluindo os filhos.

– Para os casais, entre todas essas questões conflituosas, a infidelidade é mais “imperdoável”? Ou seja, mais difícil de lidar e superar?
MOISES – É difícil mensurar isso. As outras mágoas são relativamente melhor compreendidas e aceitas. A infidelidade é um momento do presente que fere profundamente o (a) parceiro (a) no seu orgulho próprio, fere a confiança e a ética do casal.

– Por que algumas pessoas, mesmo machucadas pelo outro, preferem simplesmente varrer o assunto para debaixo do tapete? Você acha que essa saída é válida em determinadas situações?
MOISES – Principalmente porque para a sociedade é muito importante a manutenção da família – seja pelos filhos ou para sustentar uma imagem. Emocionalmente, por causa do medo e da insegurança de ficar sozinho (a). Também tem a questão financeira… A revolução da mulher entrando no mercado de trabalho é recente, cerca de 50 anos atrás, então a maioria ainda depende do homem. Essa saída de ignorar mágoas não é válida de jeito nenhum. Mesmo as pessoas que falam “Eu perdoei você”, sem ajuda terapêutica, jogaram a questão para debaixo do tapete. Não é que foi da boca pra fora, mas só atravessando um processo desses para haver realmente arrependimento e perdão.

– Você afirma que nenhum casal tem condições de lidar sozinho com mágoas e superá-las? E os casais que não podem pagar terapia nunca vão se perdoar de verdade?
MOISES – Atendo pessoas de todos os níveis sociais. Não tem a ver com isso, mas com estarem interessadas. Por mais que o casal tenha abertura para conversar, sem um mediador, não é possível perdoar o outro. Eu duvido que um casamento com episódio (s) de infidelidade (s) sobreviva sem terapia – apenas continuar juntos não significa que sobreviveram de verdade. Mas as pessoas ainda têm dificuldade de recorrer a um terapeuta. Agora, se falam que você tem apendicite… você vai lá e opera porque senão vai morrer, né?

– Por outro lado, há quem aceite continuar o relacionamento mas passe a vida jogando o erro na cara do outro. Ou escolha se “vingar”. Quais as consequências dessas atitudes?
MOISES – Isso é o mais comum. A vida do casal se transforma num inferno porque aquele que foi traído, portanto era a vítima, agora vira o carrasco. Toda infidelidade é sintoma de uma crise conjugal. Na minha opinião, não existe aventura ou uma situação ocasional. Aquele casamento não está/estava bom para os dois – não só para aquele (a) que procurou uma terceira pessoa. Quem traiu foi o bode expiatório porque se movimentou, mesmo inconscientemente e de uma maneira “torta”, para sacudir o casamento.

– Então você acredita na frase popular: “Se tá satisfeito (a) em casa, não procura na rua”?
MOISES – Não chega a ser exatamente isso. Digo que quando tá ruim pra um, tá ruim pros dois.

arte_perdoar– Como reconhecer que o outro está realmente arrependido e promete que não vai acontecer de novo?
MOISES – Não há garantia porque não temos um aparelho para descobrir se a pessoa está sendo verdadeira ou não. Mas criei um protocolo para lidar com essa e outras questões na terapia de casais. Descrevo vários passos no meu livro “A arte de Perdoar”. Um deles é que a pessoa traída faça todas as perguntas que julgar necessárias ao outro. Depois de esgotar tudo o que gostaria de saber, se tiverem interesse em continuar juntos e renovar o casamento, o traidor escreve uma carta de arrependimento. Mas esses são apenas dois passos do protocolo e devem ser conduzidos por um terapeuta para funcionar.

– Perdoar seria o mesmo que esquecer o que aconteceu, passar uma borracha para sempre?
MOISES – Não. Você perdoa, mas não esquece. Perdoa a pessoa, não o ato cometido. O que aconteceu já está marcado na sua vida. Fica uma cicatriz ali. Você pode aceitar o que houve, perdoar o outro e acreditar na renovação do casamento e no novo contrato conjugal.

– Cada um tem uma capacidade diferente de perdoar? Ou seja, pode ser mais fácil para mim do que para você?
MOISES – Nem todo mundo tem essa capacidade de perdoar. De acordo com sua história familiar e no quanto acha que vale investir nessa relação, a pessoa terá maior ou menor capacidade de perdoar naquele momento. O perdão é difícil, mas uma abertura para não ficar com mágoas retidas que podem levar a doenças físicas e emocionais.

– O “culpado” pode receber o perdão do outro, mas não se perdoar…
MOISES – Não gosto de dizer que a pessoa se perdoou. Prefiro saber se ela se arrependeu. Também é difícil se arrepender do ato praticado. Precisa de uma grande dose de humildade e de reconhecer a fragilidade humana.

***Este post foi originalmente publicado na coluna da Nath no Yahoo.

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Comentários
  • Acho que para o homem é mais fácil perdoar a traição da mulher, visto que o homem percebe a sexo como tendo maior independência do amor. A mulher por julgar que amor e sexo são dependentes tem mais dificuldade em perdoar. Assim temos que hoje em dia a traição pelo homem ou pela mulher estão se avizinhando, mas os pedidos de divórcio é maior entre as mulheres.

    28 de maio de 2017

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