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Ninfomania: quando o sexo vira doença

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Ninfomania: quando o sexo vira doença

Eu chorei durante e depois dessa entrevista. Por muitos anos, quando alguma emoção transbordava de mim numa situação profissional, morria de vergonha. Isso porque me ensinaram, na faculdade de jornalismo e nas redações por que passei, a regrinha “básica” da imparcialidade. Em outras palavras, o repórter deve agir como alguém “neutro”, sem manifestar sentimentos e opiniões. Como nunca escrevi sobre política e economia, mas sobre histórias de GENTE, raras vezes devo ter sido uma “boa” jornalista. Saio transformada de todos os universos que visito.

Foi assim com um rapaz condenado injustamente por estupro que adquiriu o vírus da AIDS na cadeia. Foi assim quando conheci uma médica de famosos que, voluntariamente, reconstrói faces de pessoas com má formação congênita. E foi assim com a Sandra*, uma designer de interior de 53 anos, moradora do Rio de Janeiro e viciada em sexo. Demorei mais de um mês para conseguir que ela me desse esse depoimento perturbador para uma reportagem da Marie Claire deste mês, nas bancas. A revista queria abordar o tema por conta do novo filme de Lars Von Trier, o polêmico “Ninfomaníaca”. Antes de fazer uma piadinha infame do tipo “me passa o telefone? é de uma mulher dessas que tô precisando”, dê uma lida no drama dela…

“A ficha caiu em 2001. Minha mãe estava morrendo no quarto ao lado e o cara com quem eu estava queria transar compulsivamente na sala. Foi quando percebi que tinha algo errado comigo e com as pessoas com quem me relacionava. Eu me incomodava com esses padrões que mantinha há anos e procurei o DASA (Dependentes de Amor e Sexo Anônimos) para entender o porquê. Vim de uma família disfuncional. Na infância, vi meu pai surrar meu irmão homossexual porque ele tinha trejeitos afeminados e minha mãe era omissa sobre as atitudes do marido com quem foi casada por 24 anos. Nunca levei um tapa, era a bonequinha do meu pai, mas fui uma criança com dificuldade de dar e receber afeto. Só aos 18 anos, quando ele morreu, compreendi que ele me bulinava com beijos no pescoço, massagens da minha perna aos genitais… Aquilo sempre me incomodava, mas eu não conseguia pedir que ele parasse porque entendia como uma forma de amor. Nessa época, perdi o rumo, passei a beber demais, usar drogas e fazer sexo feito uma louca. Eu precisava fugir da minha história. A minha descoberta sexual também foi caótica. Eu perdi a virgindade numa chantagem emocional: o cara disse que me namoraria se eu transasse com ele. Óbvio que ele sumiu depois. Mas eu engravidei, tinha 17 anos. Minha mãe me levou numa clínica para abortar – entendi aquilo como uma prática simples de resolver o problema. E essa noção teve consequências graves. Até os 33 anos, tive cerca de 200 parceiros sexuais e nunca me protegi. Fiz 18 abortos e transei sem camisinha com homens que morreram de AIDS. Estar viva é um milagre. Eu gastava muito tempo na academia para esculpir meu corpo, vivia em festas, viagens, iates… Era a “maluquinha moderna”, ninguém sabia que aquilo era uma doença. Escolhia caras bonitos, ricos e bem sucedidos porque eu tinha a fantasia de que eles iriam se apaixonar e casariam comigo. Na minha ilusão, eu imaginava que o que eu sentia era paixão. Mas eles eram doidos também – gambá só atrai gambá. Transava desenfreadamente. O sexo foi a droga mais pesada que eu já provei. Quando a euforia passava, vinha a crise depressiva: “ele me usou e jogou fora, que merda de mulher sou eu”. Ia para casa, bebia e chorava sozinha, cheia de culpa e dor. Tentei me matar várias vezes. Fui casada quatro vezes, o mais longo relacionamento durou 5 anos e gerou a minha filha (hoje com 17 anos). Quando estava casada não traía, focava minha compulsão naquela pessoa, sugava toda a energia dela como um vampiro. Até esgotar e partir para outra. Só descobri o orgasmo aos 41 anos, quando tive uma primeira relação sóbria. Eu fingia o tempo todo, vivia sob uma anestesia muito forte. A vergonha e a raiva sempre me acompanharam. Só depois de senti-las intensamente, pude transcendê-las. Quando comecei a me tratar psicologicamente, comecei a ter sonhos que remetiam aos abusos que sofri. Entendi que essas coisas ficaram registradas no meu emocional e é bom saber que consegui interromper essa cadeia disfuncional. Minha filha não vai sofrer o que eu sofri. Ela sabe que frequento o DASA, mas não os detalhes. Estou me fortalecendo para um dia poder tocar no assunto. Para me reconstruir, larguei o álcool e o cigarro. Há oito anos não tenho relação sexual. Há dois, parei de me masturbar. Não posso flertar nem ver vídeo pornô para não sentir o “barato” de novo e desencadear outro processo destrutivo. Essa abstinência foi fundamental para que eu conseguisse fazer uma reflexão profunda e me aceitar. Minha fé – sou um pouco católica, um pouco budista – também me ajudou bastante. Hoje posso resgatar tudo isso sem me penalizar mais. Posso voltar a fazer sexo, não é que nunca mais farei isso na vida. Preciso da abstinência para entrar profundamente em contato com a minha história, desconstruí-la e transformá-la. Quando encontrar alguém com quem me identifique e ache que valha a pena me envolver, seja homem ou mulher. Por enquanto, estou me namorando e me descobrindo. Isso é lindo e basta agora”.

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Comentários
  • Maravilhosa entrevista. Depoimento bem tocante. E difícil. Difícil ter uma doença que ninguém sabe que é doença, que não é visível como uma ferida ou uma macha roxa. Graças a Deus que ela está viva, bem de saúde e mentalmente para alertar a outras pessoa sobre isso.

    E triste daquele que vier com o comentário infame ou piada.

    Parabéns pela matéria!

    8 de janeiro de 2014
  • Amo seus textos mas achei esse vazio..
    Tá.. Mas e ai?
    Queria mais coisas!!!

    8 de janeiro de 2014
    • compre a Marie Claire….. kkkk

      15 de janeiro de 2014
  • A importância da família na formação da índole é essencial. Tomara que ela fique bem. Parabéns pelo trabalho, Nat.

    8 de janeiro de 2014
  • Mais uma vez parabéns pela reportagem, pena que esse Anônimo não entendeu nada…ele queria mais o que? Essa moça sofreu, inconscientemente, desde os 17 anos e finalmente conseguiu se descobrir, enfrentando os problemas que afligiam sua vida, enterrando um passado que ficara no seu subconsciente. Isso é ótimo para ela, que agora vive sem culpas, sem medos e sem fantasmas, com certeza vai ser muito feliz ainda, sozinha ou não. Sexo é bom demais, quando flui naturalmente e é realizado com amor…Um recado para sua entrevistada: vá em frente, não se reprima, o amor verdadeiro e o sexo saudável pode estar bem pertinho de você! Boa sorte, e seja muito feliz!

    8 de janeiro de 2014
  • Ótima entrevista! Parabéns!
    História tocante de alguém que por diversos fatores caminhou numa extremidade da vida sexual e por conta disso, enfrentou muitas consequências. A busca desenfreada por se reconhecer deu a ela uma sede insaciável, cuja solução levou longos anos para se apresentar: um encontro com ela mesma, onde ele pudesse ver e abraçar todos os momentos que julgou como causa do “distúrbio”. No entanto, ela optou por outro extremo, a abstnência. Há o caminho do meio. O sexo é uma maneira maravilhosa de autoconhecimento e onde podemos chegar a nossa origem, existe nele mais que um teor de necessidade básica, uma consciência espiritual muito forte. Se possível, visite a página Entendendo a Libido, no facebook, há nela bastante informação sobre o que fazer com esse excesso de libido. Ou leia sobre no livro O Tao do Coito, de Ronald Santos. Também me reconheci como ninfomaníaca e tenho visto na minha libido, cada dia mais, uma forma de expressão de mim e de busca do meu eu interno. Bjs!

    9 de janeiro de 2014
  • muito bom!

    9 de janeiro de 2014
  • Interessante o Post. O assunto, sexo e prazer, é sem dúvida, para muitos, instigante, prazeroso e interessante. Quando é acompanhado de hiperatividade ou algum comportamento que leve a entender a ação, seja de mulheres ou homens, como tal, ainda assim é preciso que ambos comunguem da mesma opção, senão a relação – caso haja uma relação a dois emocionalmente estável – degringola, ou homens e mulheres não firmam relação alguma. Em alguns casos os pares fazem opção por relacionamentos abertos ou o mais recente conhecido semiaberto. Em outros casos sejam homens sejam mulheres, há quem faça opção por sexo casual. Saber lidar com situações tão diferentes não é para muitas(os).

    Entretanto, quando o desejo descamba para situações como as descritas nos depoimentos, o que menos existe são momentos prazerosos, normalmente são atitudes resultantes de situações emocionalmente quase sempre mal resolvidas. E aí somente ajuda terapêutica para tratar da questão.

    Ontem eu já comprara a Marie Claire – como faço há anos – e li a matéria. Parabéns à autora.

    9 de janeiro de 2014
  • Parabéns pela matéria .

    12 de janeiro de 2014
  • Olá, olá!
    Gostei bastante da reportagem. Gosto muito de ver quando uma pessoa que passou boa parte da vida desorientada consegue se encontrar de verdade. A matéria é boa e serve para que muitos (as) vejam que certas atitudes que tomam hoje ou tomaram no passado podem estar influenciando o presente.
    Abraços e parabéns!

    15 de janeiro de 2014
  • Me desculpe, mas parei de ler o texto quando vi “fazes” no texto sem contexto de verbo. Obrigada.

    15 de janeiro de 2014
    • Eu posso me lascar… mas vou perguntar a você – Bárbara – onde está a palavra “fazes”.
      Você diz que a leu no texto desse Post.
      Grato,

      15 de janeiro de 2014
  • Concordo com o anônimo. O texto é mesmo vazio e cheio de implicações religiosas e senso comum. Uma pena!

    9 de setembro de 2014

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