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Muro cheio de cacos: “ninguém entra no meu jardim”

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Muro cheio de cacos: “ninguém entra no meu jardim”

Essa gente que constrói muros cheios de cacos. Elas me ferem – nunca resisti a espiar seus jardins. Inventei uma vida com janelas escancaradas. O que está dentro é (quase) tudo o que se avista do lado de fora. Se não ofereço mistério, imprevisibilidade é especialidade da casa. As visitas que entram e saem sem cerimônia logo descobrem que a geladeira nem sempre está abastecida. Intimidade tem dessas. E porque as minhas portas desconhecem chaves, fui incontáveis vezes surpreendida. Sabe aquela gente que chega com um despretensioso bolinho da tarde e fica? Não falo só de amores – principalmente deles. Claro que alguns aproveitaram a ausência de cercas, me furtaram e bagunçaram de todas as formas. Graças a eles, aprendi a varrer o que já não tem serventia e a rearranjar os móveis. Descobri que coração é teimoso: quebra, mas aos poucos se regenera.

Talvez por isso esses muros cheios de cacos me rasguem de curiosidade. O que, exatamente, eles tentam proteger? É fácil reconhecer um tipo assim. Eles não agem, reagem. “Tô com saudade”, você sempre tomando a iniciativa. “Também”. Eles não conseguem lidar com a espontaneidade do outro, precisam de estratégias o tempo todo. “Acho que eu me apaixonei”, você confessa. O que passa na cabeça deles: “Fodeu, não me preparei pra me expor agora” (timing não é o forte, já que pensam demais). O que respondem: “Espero que isso seja bom”. Eles fogem de conversas francas com frases evasivas ou retórica. “Queria entender como você encara essa coisa de a gente se pegar toda semana há meses porque eu tô meio confusa”, você ali carne-viva. “Entendo o que você está pontuando” ou “O que exatamente você espera de mim?”.

Nada é tão cômodo quanto uma não-resposta. Nem tão cruel. Por experiência própria, pelas histórias de amigas e leitoras. A estratégia é ferir antes de ser ferido? Dê um pé na bunda, mas não deixe no vácuo. Não basta demonstrar ou tentar demonstrar. Às vezes a gente precisa ouvir com todas-as-letras. Desenhe, se for o caso. Joguinhos cansam, brincar de interpretar atitudes também. E desliga a porra desse alarme à la Car System que toca sempre que eu me aproximo: “ATENÇÃO!!! Este território está sendo invadido”. Amansa esses cachorros loucos pela minha jugular que eu vim desarmada. Não sou de nenhuma instituição beneficente pedindo esmola nem Testemunha de Jeová pra te fazer fiel das minhas crenças. Destrava essas sete trancas, sai do olho mágico pra olhar nos meus. Começa me contando do que é que você tem tanto medo?

*O título e a inspiração vêm DAQUI:

*LEIA MAIS:

– Por tudo que aprendi, obrigada aos homens do passado

– A felicidade generalizada das redes sociais: de quantos likes você precisa?

– O homem perfeito pra você não é aquele que você está procurando

– Sobre turbulências e máscaras de oxigênio

– D.R.: Paixão e Medo discutem a relação

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Comentários
  • Nath, pimentinha! Descobri pq amo tanto os seus textos… se esse texto é autobiográfico, sou exatamente como vc!!! Nunca li algo que falasse tanto por mim… Portas abertas, carne viva, janelas escancaradas, imprevisibilidade: eu, eu e eu!!! E é delícia demais ser assim né?!

    16 de dezembro de 2014
  • Texto perfeito! ♡ Parabéns

    16 de dezembro de 2014
  • Que delícia de música!!
    Tão deliciosa quanto o Nero!

    17 de dezembro de 2014
  • Adorei o texto, lindo mesmo, engraçado é que eu já usei as mesmas palavras: carne viva, vacuo….kkkkk, deve ser “o inconsciente coletivo” kkkkkk, aliviei kkkkkk

    19 de dezembro de 2014
  • Simplesmente amei o texto! Excelente!

    6 de janeiro de 2016
  • Lindo texto. Pequenas verdades escancaradas ao longo das linhas. Meu plác, plác, plác, Nath. Sempre nos trazendo artigos interessantes.

    Para que as pessoas enchem seus muros – os emocionais – de cacos de vidros???

    Eu, me acostumei ao longo da vida, a pisar em tantos cacos de vidros, tentando saltar os muros, nas tentativas (tem sido muitas) de desvendar os mais intrincados mistérios que alguns relacionamentos tinham, e tem, que as vezes me pergunto o porque de tanta teimosia. Talvez o signo – será? (não acredito muito nisso, embora algumas coisas ou meras coincidências – mas seriam coincidências demais – tenham me feito dar algum crédito à astrologia, ainda que não com tanto fervor).

    “Eles fogem de conversas francas com frases evasivas ou retórica.” – e como fogem. Quem tem muito caco de vidro em cima dos muros do seu coração, costuma fugir de conversas assim que a primeira palavra de seriedade surge. De uma DR então, pulam do pico do monte Hua (Shanxi-China) para evitar por as coisas, a vida, as emoções em pratos limpos, e voltar a seguir o trilho juntos.

    É um constante desafio seguir de mãos dadas com pessoas que até mas mãos põe cacos de vidros.

    Os textos da Nathalia sempre me levam a alguma reflexão.

    23 de janeiro de 2016
  • Sumiu meu comentário.

    A contagem diz 6, há 5 visíveis…

    Que terá acontecido?

    23 de janeiro de 2016

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