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“Minha ex virou garota de programa”

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“Minha ex virou garota de programa”

Eu trocava mensagens com um ex-colega de trabalho com quem há tempos não tinha contato e me procurou curioso com a minha guinada profissional. Eu havia me demitido de duas grandes redações, em apenas seis meses, numa época de passaralhos (demissões em massa). “Como é que você vai ganhar a vida?”, ele perguntou. Não resisti: “Vou viver de sexo”. Já tinha dito isso a outros amigos e provocado risadas – supus que responderia com “hahaha” ou “kkkk”. Ele não achou a menor graça. “Nem brinca, Nath”, disse. “Minha ex namorada virou garota de programa”. Ooooooi? Foi então que marcamos um almoço pra que ele me contasse essa história. Só para constar nos autos: o cara é uma graça, inteligente, bem-humorado, bom partido.

 

Na primeira vez que a vi, ela dançava com um grupo de amigas. Usava uma saia preta, uma camisa branca e um colar grande. Me chamou a atenção na hora. Era uma morena bonita, um corpo legal, cabelos longos… Discreta, tímida, uma menininha delicada. Não fazia o tipo moderninho da Hot Hot (balada em São Paulo), mas de uma patricinha. Como a gente não tinha amigos em comum, fui me aproximando e puxei conversa. Ela parecia uma estudante muito focada por medicina. Engatei o papo fácil porque meu pai era ginecologista e minha irmã estudava para exercer a mesma profissão. Grazi tinha 19 anos, sete a menos do que eu, e fazia cursinho pré-vestibular. Eu já trabalhava como repórter em uma grande redação.  Não ficamos juntos aquela noite, mas nos envolvemos pra valer depois. O primeiro beijo veio só no segundo encontro e o sexo, dois meses mais tarde.

Aos poucos, descobri que ela era de uma família classe média alta de Perdizes. A Grazi estudou numa escola com linha antroposófica queridinha do povo das artes, tinha casa de campo na Granja Viana, uma vida bastante confortável. A mãe dela é atriz e o padrasto, músico. O pai biológico sempre foi uma figura ausente, não participou da formação da filha. Eu frequentava a casa dela e me espantava com as brigas destruidoras entre ela e a mãe. As duas discordavam sobre o futuro profissional dela, que era induzida a seguir uma carreira cultural também. Grazi queria ser médica de qualquer jeito. Ela já fazia cursinho há um ano para universidades públicas e estavam cobrando resultados. Quando a coisa ficou mais explosiva, cortaram a mesada dela e queriam coloca-la no quarto de empregada.

Foi então que ela teve um surto de rebeldia. Me ligou dizendo que não aguentava mais e sairia de casa. A Grazi se afastou das amigas e rompeu mesmo com a família. Foi morar com uma colega de academia, uma mulher mais velha que ninguém conhecia. E começou a me bombardear com cobranças, como se eu não entendesse os problemas dela. Mas meu pai estava na UTI, eu dormia quase todos os dias no hospital. Para mim, ela era só uma garota mimada fazendo escândalo por não passar no vestibular. Não aguentava mais estudar, já tomava remédio para aumentar a concentração, emagreceu de estresse. Daí vieram uns papos estranhos de comprar uma vaga na faculdade de medicina. Discutimos por causa dessa obsessão dela, eu estava muito desgastado e não tinha cabeça para aquilo. Era quase Natal de 2011 e eu terminei o nosso relacionamento de um ano e meio. Quis voltar para a minha vida, abalada com a doença do meu pai, minha maior referência.

Passei um mês recusando os telefonemas dela. No final de janeiro, decidi atender. A Grazi chorava muito, parecia bem sensível. Marcamos um café e dei alguns conselhos de amigo – nada além. Ela contou que estava namorando. Achei estranho, imaginei que fosse blefe para me causar ciúmes. Naquela mesma semana, nos vimos mais duas vezes para conversar. Numa dessas, eu brinquei: “Só falta você me dizer que seu namorado tem 55 anos…”. Ela riu e disse que ele tinha 54. Fiquei em choque, sentia algo de errado naquela história. “Esse cara está pagando você?”, perguntei enquanto dirigia. Ela respondeu que sim. Quase bati o carro. Pedi que ela me contasse tudo, garanti que não a julgaria. Minha reação foi muito prática, fiquei com dó e queria “salvá-la” daquela situação. Eu quis saber se ela havia feito isso apenas com o tal cara. Com uma certa frieza, ela disse: “Não, foram muitos”. O objetivo era reunir R$40 mil para comprar a tal vaga de medicina – mal sabia que isso custava muito mais.

Sozinha, a Grazi procurou o Bamboa (“boate para adultos” em que prostitutas caçam clientes endinheirados) e fez seu primeiro contrato. Ficou duas semanas lá, cobrando R$500 pelo programa. No início, eram dois clientes por dia – mas chegou a cinco. Depois, ela recorreu ao Café Photo e à Scandallo, ambas no mesmo padrão da primeira casa. Ela era uma companhia de luxo, faturava muito bem. Em três semanas, a Grazi juntou R$ 15 mil em dinheiro vivo, tudo guardado no apartamento em que dividia com aquela mulher da academia. O “namorado” era vice-presidente de um banco de investimentos, divorciado, pai de gêmeos, que prometeu R$20 mil a ela em troca de exclusividade. Ele devia apresentar a Grazi para amigos e familiares como a namorada gostosinha. A cada detalhe desses que eu ouvia, me sentia torturado. Não era a mesma pessoa por quem me apaixonei. Eu tinha nojo, sequer conseguia encostar um dedo nela, mas me sentia responsável por ajudá-la. Ela era inteligente, viajada e bem relacionada… não podia se leiloar desse jeito absurdo!

Quase enlouqueci em 2012. Projetei na Grazi a minha vontade de ser um super-herói, já que eu não podia fazer isso pelo meu pai, cuja doença só piorava. Ela me ligava quando se sentia suja ou desconfiava de uma gravidez, até quando ia para o hospital com infecção urinária… Escorou-se em mim e não sei como deixei isso acontecer. Emprestei dinheiro pra ela. Como o velho a bancava e ela parou de ir para as baladas-puteiro, pôde se mudar para morar com a avó sem que ninguém desconfiasse. Para todos os efeitos, ela namorava um banqueiro. Esse rolo me desestabilizou completamente e não dividi com nenhum amigo, sabia que eles teriam me afastado dela na porrada. Eu queria resolver sozinho e sem macular a imagem da Grazi. Graças ao prestígio do meu pai, consegui marcar uma reunião numa faculdade de medicina do interior para negociar uma vaga sem necessidade de ela passar na prova.

Embora fosse contra os meus princípios, era como se eu pudesse lavar as minhas mãos. Eu teria encaminhado a Grazi para outro caminho. Ela não precisaria mais se prostituir para ser estudante e doutora. Hoje sei que ela foi extremamente sedutora e me manipulou emocionalmente. Consegui abrir a negociação para a vaga, a Grazi só precisava prestar o vestibular dali a uns meses para camuflar o acordo debaixo dos panos. Fiquei aliviado. Mas faltava acabar com aquele banqueiro safado que pagava para ter uma menina como brinquedinho. Descobri os e-mails de familiares e contei que ele mantinha a Grazi, uma menina com um futuro brilhante, como prostituta particular. A cunhada respondeu que tomaria providências. Quando soube da minha atitude, a Grazi ficou possessa e ameaçou se matar. Paramos de nos falar nesse momento. Procurei o padrasto dela e revelei tudo. Na verdade, eu deveria ter feito isso antes, me livrado desse peso. Ele sugeriu que eu me afastasse, garantiu que resolveria a situação. Mais ainda: ele já sabia, mas estava preservando a esposa.

Em julho, a Grazi perdeu o vestibular da faculdade na qual tínhamos acertado a vaga. Disse que teve um problema com o voo. Todo o meu esforço foi em vão. Hoje entendo que ela fez o que fez porque quis. Eu fiquei obcecado por salvá-la, mas finalmente percebi que precisava virar a página. Estou conseguindo agora, um ano depois dessa quebra de vínculo. Mas foi uma história surreal que me marcou demais. Tive notícias dela há algum tempo. Parece que desistiu de medicina, passou em odontologia em uma universidade pública e transferiu para economia. Ela mora com um cara que deve ser seu namorado. Eu só compartilhei essa loucura, ao longo daquele período difícil, com uma amiga. Aliás, acabei de pedi-la em namoro.

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Comentários
  • Que cara mais cabaço.

    13 de outubro de 2013
  • Que final feliz :3
    Você aceitou o pedido, né?

    15 de outubro de 2013
  • Meu amigo, você esqueceu de dizer o quanto lhe agradeci, no próprio email de sua denúncia, pelo favor que você me fez. De todo modo, quis trazer a público que sua atitude foi uma mão na roda para mim. Grazi – ou como você queira chamá-la, pois para mim era Isabela – estava me criando problemas insuportáveis, pois queria cada vez mais dinheiro. E eu já tinha cansado dela. Continuava a sustentá-la só por conta da chantagem que ela me fazia. Mas depois do seu email, chutei o pau da barraca. Foi um tormento com a família, minha mulher é religiosa, mas, depois de tudo, fizemos as pazes e estamos vivendo melhor do que antes. As desconfianças acabaram, livrei-me da amante cara, que ótimo. Assim, fiquei livre para arrumar uma novinha, economizei uma grana e estou de bola cheia em casa. Abração!

    15 de outubro de 2013
    • E eis que surge um banqueiro agradecido mas que se contradiz no comentário pois o tal “banqueiro” era divorciado e não casado.

      28 de outubro de 2014
  • Cara eu tenho 15 anos apesar de ser novo nao curto pegação, quero algo serio e que dure bastante com uma pessoa bacana e que saia e viaje comigo, mas eu nao consigo achar porque sera que esta tao dificil?

    28 de junho de 2015
  • Há muitas Grazi espalhadas por aí a fora…

    24 de janeiro de 2016
  • Além dela, também sou garota de programa e meu ex passou pela mesma coisa.

    bjs

    14 de março de 2016

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