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Massagistas tântricos: eles te levam ao orgasmo usando apenas as mãos

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Massagistas tântricos: eles te levam ao orgasmo usando apenas as mãos

Reportagem que escrevi para a revista Época em outubro de 2012.

Há dez anos, o capixaba Alexsandro Barcellos Silva era um jovem psicólogo com um sogro esquisitão. Deva Nishok, pai de sua então namorada, adotara o tantra, uma filosofia oriental que usa experiências sensoriais – como massagens – para atingir a libertação física e espiritual. Por massagem, entenda-se a estimulação de todas as partes do corpo, inclusive zonas erógenas e órgãos sexuais. Mesmo “assustado”, Silva participou de algumas sessões promovidas pelo ex-sogro. “Meses depois, percebi que a experiência tinha mexido comigo”, diz ele. Silva deixou seu consultório particular de psicologia e resolveu estudar a filosofia tântrica. Hoje, aos 33 anos, Silva atende pelo nome de Pashupati. Num sobrado da Vila Mariana, em São Paulo, faz mulheres gemer, chorar e rir quando chegam ao orgasmo durante as sessões de massagem tântrica. Ele diz que sua família e seus colegas de Vitória, no Espírito Santo, onde nasceu, não aceitam muito bem a reviravolta em sua vida. Os vizinhos especulam se ele virou garoto de programa. Os pais, chocados, perguntaram se a tal massagem era “lá” onde estavam pensando. Ele confirmou. Sua mãe, Xanderly, uma dona de casa de 53 anos, demonstrou preocupação: “E se o marido dessas moças descobre?”.

Os terapeutas Ivy Fasanella (à esq.), Alexsandro Silva e Edna Pereira. Eles sabem demover clientes que confundem terapia com sexo (Foto: Julia Rodrigues/ÉPOCA)

Os terapeutas Ivy Fasanella (à esq.), Alexsandro Silva e Edna Pereira. Eles sabem demover clientes que confundem terapia com sexo (Foto: Julia Rodrigues/ÉPOCA)

Dona Xanderly não tem com o que se preocupar, diz Silva. Ele, assim como os outros 63 terapeutas do Metamorfose, o maior centro tântrico do país, é um novo tipo de profissional do prazer. Em salas com iluminação baixa, aroma de incensos e música relaxante, eles aplicam a massagem da maneira mais asséptica possível, em delicadas circunstâncias. Depois de uma breve conversa com o cliente, para entender as motivações que o levaram até lá, convidam-no a se deitar nu num futon, vestem luvas descartáveis besuntadas em óleo corporal e começam o trabalho. Não é permitido que o massagista fique nu ou seja tocado durante a sessão. Silva, como os outros terapeutas, diz seguir o protocolo rigorosamente. Por quase uma hora, ele executa movimentos suaves com as pontas dos dedos pelo corpo do cliente, “acordando” os músculos e o sistema nervoso. Na meia hora seguinte, dedica-se aos genitais. A sessão pode ou não terminar em orgasmo, mas é certo que não haverá sexo entre o massagista e seu cliente. “Encaro meu trabalho como se fosse um ginecologista”, afirma Silva. Mesmo assim, ele não é muito discreto ao revelar os elogios que escuta das clientes. “Algumas me consideram uma espécie de deus.” Silva chama algumas das sessões de massagem de “exorcismo”, por causa dos gritos e das crises de riso ou de choro: “Só aperto os botões certos para despertar algo que já está na pessoa”.

Os novos profissionais do prazer não são médicos. Eles ganham para levar os clientes ao êxtase sexual. Não gostam de falar sobre isso, mas se equilibram numa linha tênue que separa seu trabalho da prostituição. O site do Metamorfose destaca que o centro não oferece nenhum tipo de relação sexual, mas mesmo ali se destaca a boa aparência dos funcionários, sejam moças ou rapazes. Na página em que o cliente escolhe por quem quer ser atendido, muitas terapeutas chamam a atenção pela beleza e fotogenia. Nesse ramo, também não se fala em números. Os terapeutas dizem fazer no mínimo 30 atendimentos por mês. Como cada sessão custa cerca de R$ 300, chega-se a um ganho mensal de R$ 9 mil. Mesmo considerando que se paguem 50% de comissão à empresa, o massagista fica com um salário de R$ 4.500, por poucas horas de trabalho.

Para quem olha de fora, parece uma atividade motivada por dinheiro ou desejo. Os massagistas dizem que é basicamente altruísmo. Querem ajudar pessoas com problemas sexuais. As mulheres que procuram o serviço costumam reclamar de falta de libido. Algumas foram vítimas de abuso sexual. Outras têm vaginismo (contração involuntária dos músculos vaginais) e anorgasmia (ausência de orgasmos). Os homens relatam disfunções sexuais como ejaculação precoce ou impotência, causadas por problemas emocionais. Disfunções por motivos fisiológicos, como uma doença, não podem ser resolvidas pelo tantra. Se as causas são emocionais, como ansiedade ou cobrança por desempenho, ele talvez possa ajudar. “Para algumas pessoas, pode ser mais fácil encarar uma sessão de massagem do que um psicanalista”, diz a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade (Prosex), da Universidade de São Paulo (USP).

A terapeuta Dhara Prem durante uma sessão. Ela diz que a recompensa da profissão é desenvolver a sexualidade dos clientes (Foto: Julia Rodrigues/ÉPOCA)

A terapeuta Dhara Prem durante uma sessão. Ela diz que a recompensa da profissão é desenvolver a sexualidade dos clientes (Foto: Julia Rodrigues/ÉPOCA)

Na teoria, a massagem tântrica é capaz de proporcionar orgasmos poderosos porque a pessoa está ao mesmo tempo relaxada e totalmente concentrada em receber prazer. Não existe a tensão de uma relação sexual, em que as duas partes estão preocupadas com os sentimentos e o julgamento do outro. Ao mesmo tempo, é possível acompanhar, por meio do trabalho do massagista, como cada parte do corpo reage ao toque. As pessoas estão acostumadas a concentrar seu erotismo em áreas predeterminadas e podem ter surpresas agradáveis. E instrutivas. O administrador de empresas M., de 43 anos, procurou uma das cinco unidades do Spaço Tantra na cidade de São Paulo para ter novas experiências sensoriais. Ele conta que a namorada logo notou as mudanças, mesmo sem saber de seus encontros semanais com a terapeuta Dhara Prem, de 38 anos.“Hoje, capricho nas preliminares, a ereção dura mais e não preciso ejacular para ter prazer”, diz ele. Dhara, que não informa seu nome verdadeiro, afirma que essa é a maior recompensa de seu trabalho. “Meu prazer é perceber que a pessoa se entregou e deixou os problemas lá fora”, diz ela. Seus clientes são advogados, engenheiros ou executivos estressados. Eles precisam relaxar e têm como pagar pelo serviço.

Às vezes, a terapia indiana funciona como forma de salvação pessoal para o massagista. A terapeuta paulistana Samvara conta que foi abusada até os 12 anos pelo pai alcoólatra, violência que resultou numa grave depressão. Até os 25 anos, seus namoros eram só “beijo, abraço e aperto de mão”. Sem sexo, ela demorou a ter relacionamentos sérios e não formou a própria família. O primeiro orgasmo foi aos 40 anos, numa sessão tântrica. Ao notar a transformação em sua própria vida, decidiu abandonar a carreira de advogada trabalhista e dedicar-se ao tantra. Hoje, com 50 anos, diz que é “emocionante poder retribuir” o bem que fizeram a ela.

Essa disposição generosa parece um sentimento comum a todos os envolvidos na nova indústria do prazer. “Minha satisfação pessoal é ver a evolução dos clientes”, afirma Ivy Fasanella, a Yamini, ex-dentista que atende no centro Metamorfose. “Adoro saber que o sexo deles em casa melhorou. Quando isso acontece, a vida toda muda para melhor.” Ivy é loira de olhos azuis, tem 38 anos e um sorriso largo e bonito. Alguns dos homens atendidos por ela preferem não revelar às parceiras as horas passadas no futon. O professor de ioga Pedro Salgado, namorado de Ivy, não se importa. Ele diz que ajudar no desenvolvimento sexual das pessoas é “um objetivo nobre”. Não é incomum que Ivy receba ligações inconvenientes de quem confunde a terapia tântrica com sexo. Pacientemente, ela explica o engano. A confusão frequente fez com que tivesse medo, em suas primeiras sessões, de ficar sozinha com um desconhecido nu. Mesmo assim, ela diz que nunca passou por situação que não pudesse contornar. “Alguns jogam verde, brincam que vão se apaixonar”, diz. “Mostro que não existe possibilidade de algo a mais. Postura séria e tom de voz firme inibem os mal-intencionados.”

A terapeuta Edna Pereira, batizada de Hyanna, já recebeu ofertas em dinheiro para jantar ou transar com clientes. Nas primeiras vezes em que isso aconteceu, ficou desolada e chorou. “Eu me senti uma prostituta”, diz. Ela concilia o trabalho como massagista tântrica com o cargo de fisioterapeuta. Diz que hoje tem um discurso pronto para os abusados: “Você encontra isso que deseja em outros lugares, por um preço menor e sem restrições”. Edna passou um bom tempo sob olhares tortos de colegas do hospital, e um relacionamento terminou quando o rapaz soube de sua atividade. Um dia, se ofereceu para lhe fazer uma massagem tântrica. Ele adorou a surpresa, e ela revelou que fazia aquilo profissionalmente. A expressão dele mudou na hora: “Você pega no pênis de desconhecidos?”. O romance não foi para a frente, e Edna continua solteira. “É difícil para um homem entender meu trabalho”, diz. “Na cama, eles também não acompanham meu ritmo.” Por causa do conhecimento sobre o corpo proporcionado pelo tantra, Edna diz prolongar o orgasmo por tanto tempo, que uma relação sexual para ela pode durar horas.

O mercado para serviços de prazer parece estar em crescimento. Só o Metaformose tem dez unidades espalhadas por várias cidades do país, e seus terapeutas viajam para fazer atendimentos em lugares onde não há filiais. Além das pessoas com problemas na cama que querem alguma espécie de ajuda, há multidões interessadas em aumentar o próprio prazer – e o do companheiro. “As pessoas querem sempre mais diversão, mais intensidade, mais prazer”, afirma o sexólogo Amaury Mendes Junior. Isso faz parte da cultura de nosso tempo, da mesma forma como a busca pelo corpo perfeito e pelo sucesso profissional. O psiquiatra Alexandre Saadeh, do Hospital das Clínicas da USP, diz que nunca fomos tão exigentes em relação ao sexo. “É quase uma obrigação ter orgasmos intensos e uma transa sempre fenomenal”, afirma.

A busca pelo prazer constante de alta qualidade pode ser apenas uma ilusão, mas ela mobiliza gente. Assim como compramos carros e telefones celulares, que melhoram a cada ano, gostamos de acreditar que é possível melhorar tudo a nosso respeito: a aparência, os sentimentos e, por que não?, a capacidade de dar e receber prazer sexual. Pagando por isso. Em seu novo livro, Como pensar mais sobre sexo, o filósofo suíço Alain de Botton sugere que essas expectativas talvez sejam irrealistas. O sexo, diz ele, é misterioso e irremediavelmente complicado. As massagens tântricas podem ser prazerosas e estimulantes. Mas é improvável que nos abram as portas do paraíso de uma vez por todas – a despeito da boa vontade e do talento dos novos profissionais do prazer.

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