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Dicionário de Gêneros: “Só quem sente pode definir”

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Dicionário de Gêneros: “Só quem sente pode definir”

(Getty Images)

Quando um bebê nasce, o médico olha pro genital e anuncia se é menina ou menino. Assim a sociedade determina automaticamente se somos do gênero feminino ou masculino. Acontece que algumas pessoas crescem e não se identificam com essa binariedade. Podem ter um pênis entre as pernas, mas se sentirem mulheres (ou vice-versa). E muito mais do que isso. O problema é que não se encaixar em um quadradinho ou em outro significa, infelizmente, ser alvo de um preconceito avassalador. 

Por falta de informação, confundem sexo biológico, identidade de gênero e orientação sexual. Esclarecer esses conceitos foi uma das motivações para a criação do “Dicionário de Gêneros”, uma iniciativa da agência Artplan em parceria com o AfroReggae – a ONG mantém o projeto “Além do Arco Íris”para inserção das pessoas trans no mercado de trabalho. O Dicionário funciona de forma colaborativa: qualquer um pode entrar no site, dar um depoimento e dizer como define seu gênero. Alguns exemplos de gente que já se manifestou por lá… “fluido”, “andrógino”, “não-binário”, “mulher cisgênero”, “transexual”, “travesti” etc.

O próprio Facebook evoluiu nesse sentido. Antes só permitia que os usuários se classificassem pertencentes ao “sexo feminino ou masculino” – como a maioria dos formulários e documentos que preenchemos por aí. Ao abrir esse campo de cadastramento para cada um colocar o que quiser, surgiram mais de 60 tipos de gênero. Na mesma linha, o Dicionário acredita que “Só quem sente pode definir” e defende que a língua portuguesa também se adapte à inclusão. É o uso do “e” no final dos substantivos – você já deve ter visto na internet a palavra “amigue” em vez de “amigo” ou “amiga”.

Ativistas como a cartunista Laerte e o escritor João Nery abraçaram a ideia, estão em vídeos disponíveis no site do Dicionário de Gêneros. Conversei sobre o assunto com Bárbara Bono, chefe de Conteúdo e Engajamento da agência responsável por esse projeto genial.

– A sociedade (e a língua portuguesa) ainda aceita apenas a binariedade de gênero: masculino e feminino. A campanha propõe que “Só quem sente pode definir”. Por que?

BÁRBARA – Porque quando olhamos o dicionário encontramos os gêneros binários, determinado de acordo com o sexo, e mais dois não normativos: transexual e travesti. Essa definição não leva em consideração as novas discussões sobre gênero, que vão além da determinação da característica física (sexo), mas levam em consideração como as pessoas se reconhecem. O que pudemos perceber com as pesquisas foi que as definições que vemos destes quatro gêneros não representam todas as pessoas como elas realmente se sentem e se enxergam. Além de incluir a diversidade de gêneros no dicionário e, consequentemente, na língua portuguesa, o Dicionário de Gêneros propõe ressignificar as definições que já fazem parte dele. E para que estas novas definições sejam incluídas da melhor maneira, as pessoas precisam participar dessa construção. Por isso o conceito “Só quem sente pode definir”, porque só as pessoas que vivenciam cada gênero podem falar por elas.

Infográfico super didático explica a diferença entre identidade de gênero, sexo biológico e orientação sexual (Divulgação / Dicionário de Gêneros )

– De onde veio a ideia de criar esse dicionário colaborativo? Qualquer um pode entrar lá, “se definir” e comentar?

BÁRBARA- O insight veio ao descobrir as inúmeras possibilidades de gêneros e o desconhecimento da sociedade em relação à maioria deles, o que acaba resultando, infelizmente, em preconceito. O AfroReggae, por exemplo, tem o Projeto Além do Arco-íris, que trabalha com a inserção dos trans no mercado de trabalho. Os resultados do projeto mostram como a discussão de gêneros não acontece na massa, apenas nos grupos envolvidos. E o que queremos é extrapolar essa discussão para a sociedade. O formato de um dicionário colaborativo permite que qualquer pessoa encontre essa informação e possa também participar e opinar. Permite que todo conteúdo saia da plataforma e vire conversa além dos grupos, ajudando a ampliar a visão sobre identidade de gêneros.

Como foi a pesquisa que identificou mais de 60 gêneros?

BÁRBARA – Primeiro, pesquisamos matérias que abordavam o tema e também artigos escritos por pessoas imersas nesse assunto no Brasil e no exterior. Descobrimos alguns players de conteúdo, como o Facebook dos EUA, que já tinha um espaço onde os usuários encontravam mais de 60 gêneros para se identificarem nas redes sociais. Simultaneamente, fomos entrevistando pessoas envolvidas com a causa, como a Laerte e o João Nery, e que vivenciam o transexualismo e a não-binariedade. E foi a partir dessas conversas que o conceito “Só quem sente pode definir” foi sendo construído e se fortalecendo.

Laerte Coutinho, cartunista, participou do Dicionário de Gêneros (Divulgação / Artplan)

As pessoas têm muita dificuldade de entender o conceito de gênero e, mais ainda, de diferenciá-lo de orientação sexual. Vocês “desenharam” pra explicar. Acham que informação reduz o preconceito?

BÁRBARA – Com certeza. Acreditamos que a informação é um grande passo para reduzir o preconceito e trazer à tona a discussão da diversidade e do respeito ao próximo. Quando conceituamos algo de uma forma equivocada, quem vivencia esse conceito sente na pele. Quando uma palavra, uma nomenclatura, é escrita de uma forma, é desse jeito que as pessoas vão absorvê-la e passá-la adiante.

E identificamos a partir do projeto que grande parte das pessoas não entende a diferença entre sexo, orientação sexual e identidade de gênero. Por isso usar a didática do ‘desenho’ como forma de comunicação no Dicionário. A construção de um infográfico, um recurso de linguagem fácil de ser assimilado e passado adiante, que deixasse isso mais simples de se entender, ocorreu durante o desenvolvimento do projeto, ao perceber que muitas pessoas nos questionavam sobre essas diferenças. Foi um aprendizado muito grande pra gente. A equipe teve que estudar muito para conseguir traduzir o projeto de uma forma que fosse de fácil entendimento para quem não está envolvido com estes debates.

Há quem diga que usar a letra “e” (por exemplo, “amigue”), como vocês sugerem, é um exagero dos politicamente corretos. As pessoas que participaram da pesquisa faziam questão ou gostariam de ser chamadas assim?

BÁRBARA – Se usar o “e” acaba sendo inclusivo, por que não usar? Não houve uma exigência dos entrevistados, mas há um sentido por trás disso e foi mais uma coisa que aprendemos ao longo do projeto. Os gêneros que não se enquadram no binarismo não se sentem confortáveis de serem chamados no feminino ou masculino. Tivemos inclusive um relato de quem que se sentia o “ou” da pergunta ‘você é homem ou mulher?’, por exemplo. Por isso, tivemos o cuidado de respeitar a forma como todos querem ser tratados usando ou não o “e”.

Em tempos de políticos ultraconservadores como Bolsonaro, que arrebanham milhões de eleitores e falam em “ideologia de gênero”, um projeto desses deve receber críticas agressivas. Ou não? Como está sendo o feedback?

BÁRBARA – Sabíamos desde o início que esse seria um projeto para receber críticas. Isso foi um desafio que nos motivou mais ainda. E é aí que está a importância dele. Quando observamos os comentários nos posts sobre o assunto, em alguns momentos ficamos até assustados. Mas o poder de levar e fazer com que a informação seja atingida a maior quantidade de pessoas possível é animador. A maioria das críticas estão enraizadas na falta de informação em quem confunde gênero com orientação sexual. O projeto tem uma função social de contrapor o discurso de ódio ao ‘diferente’, os discursos extremistas e polarizados. Esse é, ou deveria ser sempre, o papel da Comunicação e de nós, comunicadores. E o Dicionário de Gêneros é uma iniciativa, mas é preciso muito mais. A diversidade precisa ser colocada a pé de igualdade e, pra isso, ela precisa de espaço nas discussões. Mas a gente tem muito feedback positivo e é legal ver a contrapartida de quem acredita e valoriza o tema, ou melhor, daqueles que abraçam a diversidade com respeito. Nossa melhor defesa vem das próprias pessoas.

***Este post foi originalmente publicado na coluna da Nath no Yahoo.

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Comentários
  • Amei a matéria Dicionário de gêneros.

    12 de junho de 2016
  • Muito legal a matéria sobre Dicionário de gêneros.

    12 de junho de 2016

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