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Como lidar com a sexualidade das crianças sem dar “piti”

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Como lidar com a sexualidade das crianças sem dar “piti”

(Getty Images)

Tomar banho junto pode? E se eu flagrar minha filha se esfregando no bichinho de pelúcia? Ele não tira a mão de dentro da cueca! Tudo bem meu neto brincar de médico com amiguinhos? Quando devo explicar como nascem os bebês? Ela viu dois homens se beijando, o que eu faço?

Toda criança tem sexualidade – algo inato, não aprendido. A forma como você vai lidar com esse fato é CRUCIAL para o desenvolvimento e proteção dos seus filhos/netos/sobrinhos/alunos: a relação que ele(a) terá com o próprio corpo, a noção de quem pode ou não pode tocá-lo, a responsabilidade em usar métodos contraceptivos etc.

Ignorar esse assunto não fará com que ele deixe de existir nem retardará o processo natural de qualquer ser humano. Nas palestras ministradas pela jornalista e educadora sexual Julieta Jacob, pais e professores compartilham suas angústias cotidianas. Simplesmente não sabem como reagir diante daquele(a) pequeno(a) que parece tão “precoce”.

Conversei sobre isso com a Julieta, também autora do blog Erosdita e do programa semanal “Chá Comigo” no Youtube. Dicas preciosas na entrevista abaixo, gente.

– Por que é difícil para os pais admitirem que as crianças também têm sexualidade e isso não significa “erotismo”? A malícia costuma estar muito mais na cabeça do adulto, não?

JULIETA – Quando pais e mães se informam e compreendem o processo da sexualidade fase a fase, os tabus são derrubados porque simplesmente não fazem sentido. Na infância existe sexualidade e não sexo. Existem jogos sexuais, masturbação, a experiência afetiva com os pais, mas nada disso corresponde à ideia de sexo que temos a partir da adolescência em diante, pois não há a conotação erótica do desejo sexual nos moldes da sexualidade adulta. O que a criança aprende sobre sexo e sexualidade está diretamente ligado à maneira como os pais se relacionam com ela e reagem às suas dúvidas. Compreender a sexualidade infantil é, portanto, indispensável para que os adultos permitam que ela se desenvolva sem paranoias nem culpas, mas sim com liberdade e com a devida proteção que toda criança precisa e merece ter.

A educadora sexual Julieta Jacob recebe os “aperreios” de pais e escolas diante da sexualidade das crianças (Divulgação / Erosdita)

– Existem vários tabus em relação à sexualidade no dia a dia das pessoas que têm filhos pequenos. Por exemplo, você acha que a criança pode ver os pais pelados? Lembro da filha de um amigo que, ao vê-lo trocar de roupa, perguntou: “Por que eu não tenho esse rabinho?”.

JULIETA – A nudez em casa é um tópico bem interessante. O ideal é que as famílias saibam lidar com ela de forma tranquila. Ver os pais pelados é uma boa oportunidade de conhecer o corpo do homem e da mulher (no caso de um casal heterossexual, por exemplo) e perceber as suas diferenças. É também um aprendizado sobre as transformações pelas quais o nosso corpo passa até ficar adulto (aparecimento de pêlos, crescimento dos seios). Pode acontecer também entre os irmãos e não tem nada de indecente ou de errado nisso. É claro que ver a nudez do pai e da mãe pode despertar curiosidades nas crianças e os adultos devem estar prontos para respondê-las sem mentiras nem exageros. É também uma forma de abrir o diálogo sobre sexualidade e criar uma boa conexão com os filhos a respeito desse tema tabu.

– Tudo bem tomar banho junto? Em geral, ficamos à vontade quando é mãe-filha e pai-filho… Inclusive por receio de que haja algum abuso sexual.

JULIETA – O banho compartilhado é um momento precioso que todas as famílias deveriam valorizar. Cuidar do corpo e protegê-lo é um aprendizado importante que deve começar na infância. Além do contato benéfico com a nudez dos pais, como citei na resposta anterior, a hora do banho serve para ensinar aos filhos como nomear as partes íntimas (pipiu – vulva, pitoca – pênis) e, o mais importante, falar sobre consentimento. Em vez de simplesmente ensaboar o pipiu da menina, por exemplo, o adulto pode aproveitar para dizer que trata-se de uma parte íntima do nosso corpo e que ninguém pode tocar porque é muito especial. E que a criança pode e deve dizer “não” caso alguma pessoa queira tocar no seu corpo contra a sua vontade. E que pode contar a um adulto de confiança caso isso aconteça. Da mesma forma, a criança deve aprender que não deve tocar o corpo de ninguém sem permissão (não importa qual parte seja). Ensinar uma criança a cuidar da própria higiene íntima com autonomia é também empoderá-la contra a violência sexual (existem também ótimos livros para auxiliar nessa missão. Recomendo Pipo e Fifi).

Mas é importante que esse banho ocorra numa atmosfera de bem-estar. Se os adultos não se sentem à vontade para ficar pelados, por exemplo, é melhor não forçar a barra para não gerar um clima de tensão desnecessário. O pai pode usar uma cueca caso se sinta mais confortável, mas é importante ressaltar que não existe nada de errado com o corpo nu e que a nudez não é motivo de vergonha. E não há necessidade alguma de restringir o banho às duplas de mãe-filha, pai-filho. Os arranjos podem variar e o banho pode, inclusive, ser um momento divertido e de troca de afeto entre toda a família.

Em “Chá Comigo”, seu programa semanal no Youtube, Julieta troca ideias sobre sexualidade (Divulgação / Erosdita)

Na fase de autodescoberta do corpo e das sensações “gostosinhas” que ele pode proporcionar, a criança não tem noção de sexo ainda. Muito menos que não é adequado ficar esfregando o pênis, roçando a vulva numa almofada etc… Como os adultos devem reagir ao perceber essa masturbação inocente?

JULIETA – Apesar do nome “masturbação”, na infância essa prática não tem a conotação erótica que tem na adolescência e vida adulta. Para as crianças, é simplesmente gostoso como sentir cócegas, sem qualquer ligação com fantasias sexuais. Quando flagrar o filho(a) se masturbando, a reação do adulto deve ajudar a criança a desenvolver uma atitude de aceitação em relação a si mesma e ao prazer que sente com seu corpo (portanto, jamais usar o famigerado “tire a mão daí!!” ou “isso é muito feio, entendeu?” ou ainda afastar a mão da criança). Mesmo se a masturbação for contra a sua religião, não faça a criança se sentir culpada. Nesse caso, a melhor saída é agir com franqueza e explicar sobre a razão de não concordar com a prática. Crianças de zero a dois anos ainda não assimilam muito bem regras sociais e de privacidade. Portanto, se achar que deve interromper a masturbação, basta distrair a criança com outra atividade. Ao fazer isso, preste atenção aos seus gestos e tom de voz. Se você sente certa tensão e incômodo em relação à masturbação, pode acabar transmitindo uma mensagem negativa de reprovação para a criança mesmo que não a repreenda diretamente. Crianças de três anos em diante já começam a compreender regras de privacidade. É importante limitar o local e o momento da masturbação, mas não o ato em si (exemplo: “É divertido poder sentir uma coisa gostosa assim, mas quero que faça isso quando estiver sozinho(a). Sensações especiais como essa pedem privacidade”).

– E tem a brincadeira do médico, muito comum entre crianças… O que fazer quando você flagra o(a) filho(a) “examinando” o(a) amiguinho(a)? Porque, óbvio, muitos pais acham logo que é putaria e sexo precoce.

JULIETA – Esse tipo de brincadeira diz respeito aos jogos sexuais infantis, um comportamento inocente de descoberta do corpo por mera curiosidade infantil. Se a criança tiver até três anos: não faça nada. Assim como na masturbação precoce, se sentir que deve pará-la, simplesmente desvie a atenção para outra atividade. A partir dos quatro anos: você já pode monitorar com mais frequência. Não precisa ter um ataque nervoso e gritar “parem com isso!!!”. Se acontecer, ok, respira, se acalma e recupera o fôlego, pois é hora de conversar. O ideal é que a conversa ocorra em um lugar calmo e confortável, sem tensão nem ameaças. Se as crianças estiverem muito assustadas, diga que não se zangou, ajude a criança a descrever o que a experiência significa pra ela sem transmitir pânico. Faça perguntas que sejam fáceis de responder e que não pareçam ter carga de culpa. Algumas dicas: “Que brincadeira era aquela que você e fulana estavam fazendo hoje? Tem nome? Como é que se brinca? Vocês se divertiram?”. Depois de sondar o terreno e constatar que está tudo bem, é hora de trabalhar as questões da diferença entre as idades e do consentimento: “É um jogo que pode ser gostoso se feito com um amigo(a), mas não quero que você faça com alguém que não seja da sua idade.  E só brinque se quiser. Diga ‘não’ se não quiser, entendeu? Vai me contar se algo assim acontecer e não for legal?”. Em alguns casos, quando apenas a conversa não é suficiente, pode ser necessário exercer uma supervisão um pouco mais atenta e reduzir as oportunidades (interromper o banho conjunto ou estabelecer a regra de que as crianças devem brincar de porta aberta, por exemplo).

– Que momento/idade você considera ideal para começar a conversar sobre sexualidade? Mas conversa de verdade, não aquela de dois minutos do tipo “use camisinha pra não fazer filho nem pegar pereba?”.

JULIETA – Muita gente acha que esse momento só chega quando a adolescência se aproxima, mas a conversa sobre sexualidade deve começar muito antes disso: na hora de escolher o enxoval do bebê, eu diria. É nesse momento, ao questionar os clichês cor-de-rosa ou azul, que os pais da criança já iniciam um diálogo para uma educação não sexista, por exemplo. A partir daí, haverá inúmeras situações na infância que serão oportunas pra se conversar sobre sexualidade, seja na hora do banho compartilhado, do flagra da masturbação infantil, de um jogo sexual, ou mesmo na hora de explicar à filha que tudo bem se a ela quiser brincar de carrinho e o filho quiser brincar de boneca. Quando desde cedo os pais já atentam para a importância de auxiliar na educação sexual dos filhos, não haverá problemas em dar prosseguimento a esse processo quando chegar o momento da iniciação sexual. Oferecer um caminhão de camisinhas achando que está abalando não substitui uma conversa franca sobre prazer e responsabilidade, até porque fazer sexo não é só se prevenir contra doenças e de gravidez indesejada. A escola também pode e deve auxiliar nessa tarefa. Então o lance não é esperar o “momento ideal” até porque ele não existe. O segredo é agarrar as oportunidades de conversa que aparecem ao longo da vida, buscar informação adequada e, claro, estar sempre aberto ao diálogo com os filhos. Dessa forma, cria-se uma cultura de educação sexual dentro de casa e questões como usar camisinha e fazer sexo seguro (em todos os sentidos), torna-se algo tão tranqüilo e descomplicado quanto escovar os dentes.

***Este post foi originalmente publicado na coluna da Nath no Yahoo.

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