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A felicidade generalizada das redes sociais – de quantos likes você precisa?

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A felicidade generalizada das redes sociais – de quantos likes você precisa?

É obrigatório assistir ao vídeo antes de ler o post.

Escrevo este texto da minha pequena mesa de jantar, cujos pés estão mastigados pela cadela vira-lata que jamais consegui adestrar. Embora seja meio-dia, acabei de acordar: tive insônia esta noite e, lá pelas quatro da madrugada, me convenci a tomar um remédio para dormir. Ainda estou de pijama, desses fofinhos e infantis, mas aposto que a maioria me imagina indo para cama sempre de lingerie sexy. Não transo diariamente – desculpe decepcioná-los. Também não faço anal giratório nem tripla penetração. Muitas vezes, antes de gravar um vídeo respondendo dúvidas no canal do Youtube, preciso passar corretivo/rímel/batom vermelho. Depois de lavar uma pia de louça suja e tirar o jornal com cocô da área de serviço.

Me demiti de duas revistas semanais importantes em apenas seis meses, o que me fez perder salário e visibilidade. Fui atrás do meu sonho, daquilo que amo profundamente, parabenizada por uma série de colegas. Eles não me vêm chorando, de tempos em tempos, porque empreender é difícil pra caralho. E porque passo boa parte da rotina apenas na companhia do computador, quando adoraria estar rodeada de gente, como acontecia nas redações em que trabalhei. No meu Facebook e Instagram, apesar de comentar sobre esses percalços, publico mais as mensagens de carinho e reconhecimento que recebo da malaguetada. Será que quero exibir às pessoas somente aquilo que me interessa?

Meu marido é o homem com quem escolhi dividir a vida, mas me tira do sério nas vezes em que prefere passar horas diante do videogame ao invés de ver um filme comigo. Quero parar de roer as unhas e de fumar – não consigo nem um, nem outro. Ontem, por pura preguiça de cozinhar, almocei uma maçã e um pacote de Doritos. E hoje é dia de amigas no bar, um prazer cada vez menos frequente por causa das distâncias e das agendas desencontradas. Mais tarde, certamente vamos postar uma foto nossa, com sorrisos nos lábios tingidos e drinks nas mãos. Teremos passado boa parte do nosso encontro desabafando angústias e problemas, trocando experiências que talvez confortem umas às outras.

No mundo colorido das redes sociais, este texto soaria como “mimimi” e eu seria taxada de infeliz. Porque ali desfilamos a nossa alegria, as nossas viagens incríveis em filtros/efeitos mais incríveis ainda, o nosso romance perfeito, as nossas amizades eternas, o nosso sucesso profissional, as refeições divinas em endereços badalados, os nossos pets bonitinhos, o nosso corpo no melhor ângulo. Essa geração, na qual me incluo, conseguiu um espaço para realizar uma fantasia impossível na realidade – selecionamos somente os bons momentos. Mas fomos além. Nos tornamos dependentes da aprovação dos outros na medida em que a quantidade de likes determina quão interessantes/divertidas/invejáveis são as nossas vidas.

A suposta felicidade generalizada está inflacionando as nossas expectativas e, por consequência, nos deixando mais deprimidos. Tenho a impressão de que estamos nos comparando demais aos outros. Pior: não ao que eles vivem de fato, mas à pequena parcela que permitem mostrar nas redes sociais. Na tentativa de equiparar-se a essa massa cor-de-rosa, vejo gente se comportando (consciente ou inconscientemente) de maneira absolutamente forjada. Meses atrás, enquanto jantava com meu marido num restaurante, notei o profundo silêncio entre um casal da mesa ao lado. Ambos mergulhados em seus smartphones, sem trocar olhar ou palavra. Minto: ela disse que queria tirar uma foto, se aproximou dele e fizeram um selfie juntos. Que, não duvido, foi publicado com uma legenda bem fofa.

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Comentários
  • Nosso choquei com seu texto, mas amei… Isso é bem mais que um desabafo é o que estamos vivendo.

    25 de junho de 2014
  • Muitíssimo obrigada por ter colocado no papel tudo o que penso sobre a necessidade dos “likes” das pessos nas redes sociais. Tenho uma filha de 12 anos que está viciada na internet _ ou melhor: nos tais “likes”_ e desejo muitíssimo que ela entenda que nas redes sociais as pessoas só postam seus melhores momentos. Sim, porque ninguém curte quando levamos fora do namorado, pé na bunda no trabalho, se comemos o restodontê de ontem ou um mero miojo! E, ouvi uma pérola ontem no grupo espiritualista que frequento “ficar ouvindo gente depressiva falar é uma saco!” …tive pena da pessoa, uma alma pequena!
    Então, juro que tento colocar isso na cabeça da minha filha: não dê tanto valor ao que as pessoas das suas redes sociais pensam sobre vc e seus posts! Faça por vc! Assim como água mole em pedra dura…creio que um dia chegarei lá!
    Mais uma vez, então, obrigada por fazer das “minhas idéias” suas palavras!
    Adoro seus textos, sã muito humanos e ricos.
    Meus sinceros parabéns!
    Vida longa, apimentada!
    Giuliana

    25 de junho de 2014
  • Nathalia, não tenho palavras para agradece-la por ter escrito o que eu estava pensando rss. Ótimo texto,
    Trabalhar em casa e em cima de um projeto totalmente novo é difícil pacas, difícil emplacar e render dinheiro não é mesmo ?
    Principalmente em nosso ramo em que as pessoas usam, abusam e se lambuzam (sem trocadilhos) mas o pastor da igreja ou o professor da faculdade não pode ver que curto no Facebook uma fan page de Sex Shop….,,

    Desafio: como conseguir curtidas e seguidores rss

    Comecei a segui la pelas mídias e mesmo em pouco tempo sei que sigo algo com conteúdo.

    Um grande abraço

    25 de junho de 2014
  • Oi nathalia, tudo bem?

    Apesar de ja conversarmos virtualmente, e deu ler praticamente todos os seus posts no face e seus textos publicados, foi a primeira vez que li um texto na integra no pimentaria. Confesso. Trabalhando em agencia eu nunca tive tempo. Eu soh tenho que te agradecer, pq como ja te dissse outras vezes, vc eh uma das minhas musas inspiradoras do jornalismo. A unica coisa que ao contrario que vc, ando fazendo turismo na cidade e conhecendo todos os locais que tem wifi. Rs. O sesc pinheiros eh hj meu local favorito pra trabalhar. Rs. O dia que tiver de bobeira marcamos um almoco. Otimo texto.

    25 de junho de 2014
  • Nat, já faz algum tempo que uma pesquisa alemã mostrou como a “felicidade ” nas redes sociais causa depressão. Ficar triste ou infeliz faz parte da vida. Mas não pode virar post, não é?
    Profunda sua reflexão,

    Bjs

    25 de junho de 2014
  • NATHALIA vc sempre arrasa nos posts, leio a tudo que você posta desde o caso Fran e foi aquele texto que me fez te admirar, que me fez ver que outras pessoas pensam como eu , e hoje você me surpreende com algo que bate a nossa porta todos os dias e que poucos tem coragem de expressar, parabéns, estou certa que você será muito feliz na sua área, nessa batalha por seu espaço !!!

    25 de junho de 2014
  • Há tempos notei isso.Essa aparente felicidade nas redes sociais é algo que soa muito artificial.Vendo atualizações,tenho a sensação que só minha vida não é tão incrível e cheia de momentos tão felizes como a da maioria.Muitas vezes me pergunto:Será mesmo que todo mundo é sempre tão feliz assim?Não que felicidade alheia incomoda,mas tenho a sensação que parece tudo encenação,teatro,as redes sociais virou mais um meio de exibicionismo.As pessoas perderam o bom senso,hoje nos barzinhos as pessoas não conversam mais entre si,ficam a todo momento nos celulares,tablets e blabla…Parece que as companhias não tem mais o mesmo sabor,acho triste isso.Gosto de tecnologia,porém não tanto quanto a maioria por aí…Mas confesso que ando um pouco de saco cheio desse mundo virtual,de pessoas virtuais,até os amigos,antes de olho no olho viraram apenas conhecidos do mundo virtual.Hoje em dia receber a ligação de alguém virou algo raro.Acham que e-mails,SMS,WhatsApp suprem a presença física.Ninguém mais pede telefone para manter contato,mas sim facebook e WhatsApp.Eu ainda prefiro ouvir o som da voz de alguém a receber um amontoado caracteres.

    25 de junho de 2014
  • Sua digna!
    Tenho medo de postar frases um pouco deprimidas ou felizes demais, pois posso ser taxada de depressiva ou de excessivamente feliz.
    Foda-se! Não devia ser assim.

    Obrigada por ser tão você, Nath!
    Bejo!

    25 de junho de 2014
  • Minha ficha pra isso caiu quando uma conhecida que tinha uma vida linda – com foto do pedido de casamento, da assinatura do contrato de compra do apê, do vestido de noiva, da festa linda, da viagem pra Paris, dos jantares… se divorciou um ano depois de casada. Ué!? A vida dela não era incrívelmente melhor que a minha… não!
    Mas o foda é perceber que eu me seguro pra não “ostentar” no facebook. Gente, como dá vontade de gritar pro nosso mundo: “olha, eu tbem sou feliz, tenho uma vida legal”, mesmo que seja tão fake quanto a felicidade e fofura do casal da mesa ao lado da sua. Dá um medinho…
    Ótimo texto, como sempre!

    26 de junho de 2014
  • Curti

    26 de junho de 2014
  • Arrazou como sempre !

    26 de junho de 2014
  • Nath, como sempre arrasa nos posts!
    A felicidade que trasborda nas redes sociais soa muito artificial. É uma vontade incabível de mostrar como estão “se sentindo”, vivendo e amando, sendo que a realidade é totalmente oposta.
    No entanto, quem quer mostrar a vida assim “sem graça”, enquanto 99% dos amigos não estão indignados, infelizes ou arrasados com nada?
    Mostrar a vida crua, sem fantasia, tornou-se o principal medo das pessoas.
    Parabéns, o sucesso já está com você.
    Beijo

    26 de junho de 2014
  • Acho que estamos preocupados demais em alimentar o nosso EGO. Por isso varias pessoas se satisfazem de dessa forma, acho que o tesão de viver ta no momento, e nem um pouco na pausa para tirar a foto e compartilhar e ganhar likes.

    23 de setembro de 2014
  • Real cosmovisão dessa inteligente mulher secular. Retrata perfeitamente a pós modernidade fragmentada

    31 de dezembro de 2014
  • Engraçado vir parar no seu blog por acado justo hoje quando publiquei o seguinte texto no Insta: “Esse post é pra lembrar que eu também tenho olheiras que quero esconder, gordurinhas que insistem em ter comprovante de endereço no meu corpo e tristezas que por vezes sondam o meu coração… Mas a vida é mais. A vida é mais que nossos melhores ângulos, as comidas saborosas que provamos ou as viagens incríveis que fazemos, enfim, a vida é mais do que os sorrisos que mostramos e as lágrimas que escondemos! Então não olhe pra mim nem pra ninguém achando que sua grama é menos verde e sua vida menos completa… Lembre-se que todo mundo (eu inclusive!) pode criar uma “versão melhorada” da realidade quando se trata de redes sociais! Nem tudo que reluz é ouro…

    19 de janeiro de 2015
  • Nath, li o artigo de soslaio, ou como diz um grande amigo, fiz uma leitura diagonal – e as pressas, que há muita tarefa (domésticas) a ser feita nesta manhã de sábado.

    Mas gosto da plantação de malaguetas. Aqui se lê: a vida, o dia a dia, nus e´crus, como são.

    Parabéns! – depois volto e leio na íntegra. Vou ali comprar um “salarim” que é melhor que o clássico “francês”.

    23 de janeiro de 2016
  • E a Glau, escreve onde???

    23 de janeiro de 2016
  • escreveu tudo q penso sobre os encontros hj em dia
    se sai com um monte de amigos, a maioria tá de cabeça baixa no celular, se vejo um casal ao lado ,estão no whats app. se brincar, estão dialogando pelo aplicativo!

    23 de março de 2016

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