“Não é só pra fazer sexo”, diz diretor de motel de luxo

“Não é só pra fazer sexo”, diz diretor de motel de luxo

Quando Felipe Martinez mudou do Rio de Janeiro para São Paulo, levou as malas para uma suíte do motel Côncavo & Convexo (construído nos anos 1990, época das camas redondas e espelhos no teto), onde morou por oito meses. Desconfio que tenha acordado algumas noites com gemidos vindos dos quartos ao lado… Mas Felipe não estava lá pra o seu próprio ~lazer~, não. Agora imagina explicar isso pra namorada? Ele queria conhecer ~a fundo~ os bastidores da empresa que começaria a dirigir com Leonardo Dib. Em 2013, eles relançaram no mesmo endereço um motel totalmente diferente.O “Lush” é muito mais parecido com um hotel de luxo.

Aos 32 anos, Felipe é também diretor da Associação Brasileira de Motéis. Herdou do pai o tesão pelo ~negócio~ do sexo. Conversei com ele sobre o perfil das pessoas que adoram garagens privativas, o preconceito de outras tantas, a campanha em que famosos chefs de cozinha assinam o cardápio dos motéis e até sobre a lenda de que eles lotam no Dia da Secretária…

– Seu pai era um dos sócios do antigo motel Côncavo & Convexo (atualLush), inaugurado nos anos 1990. Você conseguiu muitas pernoites de graça?

FELIPE – Meu pai mentia pra família e amigos sobre o negócio que tinha em São Paulo. Ele dizia que era um hotel, ficava uma coisa meio mal explicada. Na época, o tabu da sexualidade era muito maior que hoje. Como morávamos no Rio de Janeiro e ele vivia na ponte aérea, a história até que colava. Um dia, quando eu era criança, fui escondido na gaveta do meu pai para ver umas edições da Playboy. Aí descobri o anúncio do Côncavo & Convexo lá e entendi para que servia um motel. Mas confesso que nem dei muita bola, estava mais interessado nas outras páginas da revista (risos). Mesmo adolescente, e depois adulto também, nunca gozei desse benefício. Nunca usei as suítes do motel.

– Nem hoje em dia, já como diretor da empresa?

FELIPE – Não, sabia? É até um desperdício porque a gente cuida das suítes com tanto carinho, investe tanto na decoração e automatização… Mas prefiro separar as coisas e levar minha namorada em outros motéis da cidade. Aí já aproveito e testo a concorrência (risos).

Os diretores Leonardo Dib e Felipe Martinez transformaram motel dos anos 1990 em projeto de design para derrubar preconceitos (Divulgação / Lush Motel)

– Como você e o Leonardo Dib assumiram o negócio?

FELIPE – A gente se conheceu e, por uma coincidência, percebemos que havíamos estudado na mesma faculdade – ele era meu veterano. Nosso projeto de repaginar o antigo Côncavo & Convexo começou em 2010, viemos do Rio pra São Paulo e não tínhamos onde morar. Foi engraçado porque aproveitamos para morar no motel por oito meses também pra conhecer todo os bastidores do negócio. Nos mudamos cada um para uma suíte, levamos nossas malas todas pra lá (risos).

– Que conceito vocês quiseram implementar nesse novo motel?

FELIPE – Estamos reformando as últimas quatro das 60 suítes do motel. Todas têm um projeto diferenciado de design futurista e decoração moderna, todas são automatizadas [um controle remoto controla luzes, ar condicionado, tv, música, teto solar etc]. Fora isso, nossa proposta é oferecer experiências de lazer pro casal – mais do que um lugar para fazer sexo. Desde um jantar bacana aos pacotes que incluem passeio de helicóptero ou Ferrari. Uma das suítes, por exemplo, tem uma cabine de cinema 4D.

Suíte com cabine de cinema 4D (Divulgação / Lush Motel)

– Então o público mudou, certo?

FELIPE – Na época do Côncavo & Convexo eles tinham acima de 40 e 50 anos de idade, hoje a faixa etária é de 30 a 40 anos. Poucos frequentadores de 20 porque para muitos o valor do período é caro [os preços variam entre R$ 135 e R$ 480]. Outra curiosidade é que muitos clientes nunca haviam ido a um motel. Percebemos pelas perguntas que fazem por email e telefone: “vocês têm valet?” ou “o garçom entra no quarto para servir a comida?”. Gente que realmente não conhece a dinâmica.

– Que dias da semana, horários e datas comemorativas são mais bombados?

FELIPE – As noites de sexta e sábado lotam. E o Dia dos Namorados ganha disparado entre as datas comemorativas.

– Verdade que no Dia da Secretária os motéis abarrotam também? Ou é lenda urbana?

FELIPE – Esse é o maior mito (risos)! Juro que nem sei quando é o Dia da Secretária! Mas nunca houve nenhum movimento atípico por isso – já perguntei para vários empresários de motéis no país inteiro.

– Ainda existe o preconceito de que motéis não são higiênicos, especialmente quando a suíte tem banheira e piscina…

FELIPE – Higiene é obrigação de qualquer motel. A grande maioria dos motéis envia toalhas e lençóis para as mesmas lavanderias que recebem enxoval de hotéis e pousadas. As piscinas do Lush são tratadas com cloro, filtradas 24 horas, todo mês fazemos análise da água e elas estão acima da média de muitos estabelecimentos que não são motéis. Nos dias de maior movimento, no máximo oito pessoas usaram a piscina de uma suíte. Quantas pessoas passam pela piscina de um clube num domingo ensolarado – com várias crianças urinando ali? As hidromassagens mais higiênicas possuem um sistema de auto drenagem para que a água usada não fique na tubulação e, portanto, não seja reaproveitada quando o motor for ligado pelo próximo casal. As funcionárias da limpeza seguem um roteiro toda vez que um cliente deixa a suíte – dependendo do tamanho do quarto e se ele tem hidro ou piscina, a arrumação pode levar até uma hora.

– Algumas pessoas estranham o fato de eu frequentar motéis com meu marido. Perguntam “por que gastar esse dinheiro se vocês já têm privacidade em casa?”.

FELIPE – Por que você sai para comer num restaurante se tem comida na sua geladeira? Por que vai ao cinema se tem tv com Netflix? Então não sai de casa para nada, né? Motel também é um lazer para o casal.

– Mudou muito a demanda, o que se busca num motel?

FELIPE – O consumidor mudou muito, principalmente, porque ele tem uma variedade muito maior à disposição. Antes ele tinha dois tipos de cerveja no mercado, hoje tem dezenas de artesanais, importadas etc. Aconteceu a mesma coisa com o comércio e os serviços. Ele quer coisas diferentes inclusive no que espera de um motel – não mais aquele estereótipo de uma cama redonda com espelho no teto e luz neon. A gente foi se adaptando ao novo perfil do consumidor e trazendo todo tipo de inovação.

Isabel Alvarez, vencedora do Master Chef Brasil 2, assina cardápio da promoção “Chefs no Motel” (Divulgação / Lush)

– A galera quer comer bem nos dois sentidos, né? Me fala dessa iniciativa chamada “Chefs no Motel”?

FELIPE – Exatamente (risos). Entre 11 de abril e 11 de maio, nove motéis de são Paulo vão oferecer cardápios elaborados por chefs com preço promocional – como o Restaurant Week. De segunda à quinta-feira, o casal pagará R$ 49 por uma refeição com duas entradas e dois pratos principais. O valor sobe para R$ 59 de sexta a domingo. No Lush, os pratos foram criados pela Isabel Alvarez, vencedora da segunda temporada do reality Master Chef Brasil.

**Este post foi originalmente publicado na coluna da Nath no Yahoo.

*LEIA MAIS:

– Suíte Cinquenta Tons de Cinza: eu fui!

– Como motéis podem apimentar (muito) o sexo

– Swing ou balada liberal: visitei e conto tudinho

– Como explico pra outra mulher que queremos um ménage com ela?

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