Canalha, um compulsivo por relações descartáveis

Canalha, um compulsivo por relações descartáveis

(Thinkstock)

Ele não quer só sexo. Ele quer se apaixonar. Por você ou por qualquer outra. Tanto faz. O que o canalha deseja de verdade não é a pessoa em si, mas aquilo que ela pode proporcionar. Mais intimidade que uma trepada casual, menos que um amor a longo prazo. Dormir de conchinha de vez em quando. Passear com o cachorro dela. Ter companhia pro cinema. Viajar pro Nordeste na baixa temporada. Ligar pra falar do pai que não anda bem da saúde. Voltar a ver os amigos que só fazem programa em casal. Almoço de domingo com a lasanha da mãe dela. Desabafar sobre os perrengues profissionais. Receber atenção, colo, carinho, colo. E ter sexo entrosado, aquele à vontade e sem muitos pudores, em que você pede o que gosta.

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Ele manda mensagem perguntando se você chegou bem, agradecendo a noite incrível. Dois dias depois, no máximo, diz que mal conseguiu trabalhar porque não vê a hora de se encontrarem de novo. Logo estão de mãos dadas caminhando numa feirinha hippie, jantando num bristô a luz de velas, postando selfies a contragosto dele (que odeia dar motivo pra fofoca, afinal já prometeu e comeu metade das integrantes de sua rede social). Sugere que deixem de lado a camisinha, embora te traia com outras também desprotegido. Quando uma amiga te aconselha a ir com calma porque conhece o tipo dele, você pensa: “Tudo bem, comigo vai ser diferente… ele ainda não tinha achado a mulher certa”. O errado é esse homem, gata.

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Ele está encantado e realmente faz com que tudo pareça inédito. Porque acredita nas próprias mentiras e, a cada paixão, diz que nunca sentiu uma coisa assim na vida inteira. O canalha não tem vinte e poucos anos – tá lá pelos trinta, quarenta. Não é alguém inexperiente, bem-intencionado, confuso em relação aos sentimentos. O canalha é capaz de pedir em casamento, financiar apartamento, discutir o nome dos futuros filhos. Só que ele sabe que não vai mudar o status civil nem dividir teto com ninguém, que não tem maturidade para ser pai. Cruel, ouve suas expectativas mesmo não tendo planos de concretizá-las. Ele segue enrolando com respostas vagas, mudando de assunto.

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Ele começa a ficar estranho com você quando a paixão arrefece e o frio na barriga acaba. Em geral, segundo a ciência, isso leva entre um ano e meio e dois anos para acontecer. Com todo mundo. Em todos os relacionamentos. Quanto tempo duraram as ex dele? Paixão precisa de novidade, imprevisibilidade, mistério. É o que mantém o fogo do sexo sem hora nem lugar. É a insegurança de não saber se ele(a) vai ligar, vai dizer “eu te amo”, vai voltar depois da briga. Amor precisa do oposto para florescer: segurança, estabilidade, intimidade. É ser inteiro, com tudo que há de bom e ruim, diante do outro. É ter uma profunda cumplicidade e vontade de planejar uma vida a dois.

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Ele foge diante dessa ameaça porque não tem isso pra dar – até Peter Pan tem mais maturidade emocional. E só quer a parte fácil, nada de esforço e dedicação. O canalha vai te deixar na merda, magoada, machucada. Você vai se sentir descartável como papel de presente. A culpa não é sua. Ele vai se envolver com outra na sequência e repetir o enredo filho-da-puta. Você vai ficar com raiva da moça da vez, mas daqui a uns meses olhará pra ela com piedade. Ele sempre acha que precisa de uma nova paixão. O que precisa mesmo é de uma bela bordoada e infinitas sessões de terapia. Canalhas compulsivos jamais saberão o que é amor – e esta é a melhor vingança, querida.

***Este post foi originalmente publicado na coluna da Nath no Yahoo.

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