As seis lições do erótico “Love”, filme de Gaspar Noé em cartaz nos cinemas

As seis lições do erótico “Love”, filme de Gaspar Noé em cartaz nos cinemas

TEXTO: JULIETA JACOB

– Juba, você já viu “Love”?

– Não, por quê?

– Porque o filme é a tua cara… tem sexo explícito e uma gozada em 3D.

Eu não sabia que tinha cara de foda ou de esperma, mas confesso que depois desse singelo convite, não resisti e fui conferir o novo filme de Gaspar Noé – aclamado no último festival de Cannes. Mas não sem antes chamar meu marido, né? Cheguei antes dele ao cinema, comprei os ingressos e fiquei esperando dentro da sala. A sessão estava lotada. Minutos depois do início, ele chegou apressado e colocou os óculos 3D.

– Perdi muita coisa?

– Nada, essa é a primeira cena do filme. Eles estão aí se masturbando há uns cinco minutos.

Não se preocupe com spoiler. Nada do que eu contar aqui substitui a experiência de assistir ao filme – e ver tudo em três dimensões. A julgar por mim mesma, a expectativa era de que íamos ter um programa excitante e divertido, com o detalhe-fetiche de poder compartilhar coletivamente com estranhos. Mas não. “Love” não é exatamente divertido. Claro que o filme tem cenas de-li-ci-o-sas de sexo (a dois, a três, suruba, oral, anal, tantra e rapidinha. Teve gente que até fotografou a tela – juro!) O que predomina é a sensação de angústia de uma paixão confusa, imatura e sufocante.

Antes que você pense que eu não gostei do filme, vou te contar alguns “se liga” importantes que ele nos traz e que devemos levar para a vida, ok? Só por isso, ele já vale a pena. Acompanhem comigo: Murphy namora Electra. Eles se curtem, se comem muito (a toda hora e todo instante) e parecem felizes. Um belo dia, ele faz a seguinte pergunta à amada: “Qual é o seu desejo mais radical?”. E ela prontamente: “Fazer um ménage: eu, você e uma loira”. Voilà! E não é que bem ali, no apartamento ao lado, morava Omi, uma loira gata e bem simpática – de apenas 16 aninhos? Dois dedos de prosa e lá estavam os três a se deliciarem na cama – COM camisinha, diga-se. Pronto. Desejo realizado. Vida monogâmica que segue. Né? Assim seria se Murphy não pensasse com a cabeça do seu pau. E o que pensa um pau senão apenas em foder?

Se liga 01: fazer um ménage exige maturidade. Emocional e sexual. E uma boa dose de segurança e desapego.

Aproveitando que Electra tinha ido passar o fim de semana fora da cidade, Murphy dá uma escapada e resolve matar a saudade da vizinha galega. Sim, eles transam. Sim, ele usa camisinha. Sim, a camisinha ESTOURA. Sim, Omi engravida. Sim, Murphy merece o nome que tem. Sim, fudeu. A partir daí, a coisa desanda. Quando Murphy conta a Electra sobre a gravidez, ela não o perdoa e termina a relação. Murphy passa a morar com Omi e o pequeno e fofo Gaspar, fruto da camisinha estourada. Só que a vida desse novo casal é um inferno, pois Murphy não consegue se desligar de Electra, sua grande paixão-tesão.

Se liga 02: filho, por mais incrível que seja, não é garantia de felicidade para o casal.

Um belo dia, dois anos mais tarde, a mãe de Electra liga pra Murphy dizendo que a filha sumiu e perguntando se ele teria pistas do paradeiro dela. A suspeita é que ela cometeu suicídio. Pronto, era a faísca que faltava pra fazer Murphy mergulhar de volta nas lembranças do seu relacionamento com Electra.

Se liga 03: paixões mal resolvidas sempre voltam. Sempre. De um jeito ou de outro. Não adianta fugir.

Nesse flashback sexual meio fora de ordem, a gente vê de tudo. E tem uma cena engraçada. Numa festa, Murphy escapa e transa no banheiro com uma mulher que acabou de conhecer. Electra desconfia, vai até lá e escuta os dois trepando. Em seguida, Murphy reaparece com cara de quem comeu e gostou, mas nega de pés juntos a traição. Electra decide jogar limpo e confessa que também o traiu dias atrás com o ex-namorado. Aí você pensa: pronto, assunto encerrado, agora estão quites! Mas aí… Murphy fica puto da vida porque foi traído e, na primeira oportunidade que tem, enche o ex de Electra de porrada e a chama de “vadia”.

Se liga 04: Traição é traição. Sem essa de “a sua é mais grave que a minha”. Por favor.

Murphy vai parar na delegacia e, pasmem, vira best friend do policial que, ao saber da história da gaia, dá um conselho muito interessante: “Rapaz, não tente reprimir os desejos da sua mulher… não tem prova de amor maior do que realizar as fantasias sexuais dela”. Traduzindo o conselho: leve Electra pra uma boate onde todo mundo trepa com todo mundo e na frente de todo mundo. E lá foram os dois se divertir juntos. Troca-troca geral, absoluto e irrestrito. Ela come e dá pra quem quer, ele também. Drama zero. Passado o momento “ninguém é de ninguém”, veio a crise. De ciúme. De Murphy. Veja só: enquanto Electra segurou a onda com louvor vendo o namorado meter em tudo que era buraco, Murphy ficou de picuinha: “Você tava muito felizinha transando com aquela mulher, hein? E aquele velho te comendo?”. Da platéia, que até então estava quietinha (ninguém saiu da sala durante a exibição), veio o grito “machista!”. Não fui eu, mas bem que podia ter sido.

Se liga 05: Você pode tudo, mas ela não? Melhore, querido. Se não aguenta a brincadeira, não desce pro play.

A essa altura a gente já percebeu que a relação dos dois é doentia. Eles se amam e se maltratam na mesma proporção. Se agridem, mas não se desgrudam. Apesar do sexo delicioso, há também muita posse e dependência.

Se liga 06: Alguém disse que é viciado em você ou que morreria sem você? Não se engane. A chance de virar um relacionamento abusivo é enorme. Apenas diga: “prove que me ama: vá fazer terapia e depois a gente conversa”.

Assim é Love. Um filme pornô-cult ou erótico com sentimento. E a famosa gozada em 3D? Eu ia dizer que era justamente o sétimo “se liga”, mas lembrei que a cena é em câmera lenta. Dá para apreciar calmamente a gala espirrar feito um chafariz; abrir a boca ou esticar a mão na direção do jato, ou mesmo desviar o rosto – pois por alguns segundos a gente pensa que vai sair do cinema com a cara cheia de esperma.

*Julieta Jacob é jornalista e educadora sexual, idealizadora do blog Erosdita, vive em Recife (PE). Você vai ler muitos textos dela a partir de hoje 🙂

***LEIA  MAIS:

– “Como explico pra outra mulher que queremos um ménage com ela?”

– “Meu marido propôs sexo a três e foi incrível”

– Suíte Cinquenta Tons de Cinza – eu fui!

– “Minha fantasia é vê-lo transar com outra”

– Swing ou “balada liberal”: eu fui e conto tudinho!

– Leitora: “transei com o taxista”

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10 comentários

    1. Julieta Jacob

      Em Recife também só está em uma sala, Agata. Nenhum outro bancou exibir a “putaria”. Bobagem. O filme é ótimo (apesar do tom dramático-deprê). Não perca!

  1. Rafael

    Estava eu ja ligando para minha esposa para chamar ela para ir ao cinema hoje quando descubro que o filme não esta em cartaz no meu estado.
    Acho um absurdo tal atitude nos cinemas, vai ver o filme quem quiser.


    1. Post author

      Eu também acho, Rafa. Houve uma baita polêmica quando o filme estreou porque várias salas de cinema voltaram atrás e descumpriram o acordo de exibição – provavelmente por medo da repercussão que isso traria. Logo mais, por esse e outros motivos, quem quiser poderá assistir nos dvds piratas da vida e em canais como o Pop Corn. Perdem os cinemas, perde quem gostaria de pagar para ver numa telona e em 3D, né?

  2. Rafael

    Certeza Nath, fazer o que e meus parabéns sou muito fã do pimentaria, encontrei o blog por acaso e hoje está entre meus favoritos.
    Bjos

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